Dra. Margarida Martins

Expectativa de rejeição: quando aprendemos a esperar que os outros não nos aceitem

Há pessoas que entram numa nova relação já à espera de serem rejeitadas.

Outras evitam falar sobre o que sentem porque acreditam que ninguém as compreenderá.

Algumas escondem partes importantes da sua identidade para evitar críticas, exclusão ou abandono.

Nem sempre estas reações surgem por falta de confiança.

Muitas vezes, resultam de uma aprendizagem construída ao longo da vida.

Na Psicologia, esta tendência pode ser compreendida através do conceito de expectativa de rejeição: a crença de que, mais cedo ou mais tarde, os outros nos irão rejeitar, desvalorizar ou deixar de aceitar quando nos conhecerem verdadeiramente.

Como se desenvolve a expectativa de rejeição?

O nosso cérebro aprende com as experiências.

Quando uma pessoa vive repetidamente situações de rejeição, humilhação, discriminação, bullying ou invalidação emocional, o cérebro procura proteger-se.

Passa a antecipar o perigo antes mesmo de existirem sinais claros de que ele está presente.

Este mecanismo tem uma função adaptativa.

Se uma experiência foi dolorosa, faz sentido que o cérebro tente evitar que volte a acontecer.

O problema surge quando esta estratégia deixa de distinguir o passado do presente.

A pessoa começa a interpretar novas relações através das feridas antigas.

Pode evitar aproximar-se dos outros.

Pode esconder emoções, opiniões ou características importantes da sua identidade.

Pode afastar-se antes mesmo de existir qualquer rejeição.

Paradoxalmente, aquilo que começou como uma forma de proteção acaba por aumentar a solidão e dificultar o sentimento de pertença.

A boa notícia: o cérebro também aprende a sentir segurança

Tal como aprende a esperar rejeição, o cérebro também pode aprender que existem relações seguras.

Este processo é possível graças à neuroplasticidade, a capacidade que o cérebro tem para criar novas ligações e reorganizar-se a partir das experiências vividas.

Cada experiência de aceitação funciona como uma nova informação.

Cada vez que alguém escuta sem julgar.

Cada vez que mostramos uma vulnerabilidade e encontramos compreensão em vez de crítica.

Cada vez que somos respeitados sem precisarmos de esconder quem somos.

Cada vez que sentimos que pertencemos.

O cérebro começa, gradualmente, a construir novas referências.

Pouco a pouco, deixa de interpretar todas as relações como potenciais ameaças.

Começa a perceber que a rejeição pode acontecer, mas não é uma inevitabilidade.

Porque as relações afirmativas ajudam a transformar o medo da rejeição

Nenhuma mudança acontece apenas porque alguém nos diz para “pensar de forma positiva”.

O que verdadeiramente transforma a expectativa de rejeição são experiências repetidas de segurança emocional.

É por isso que as relações afirmativas, os grupos de pertença, as comunidades inclusivas e a relação terapêutica podem ter um impacto tão significativo na saúde mental.

São espaços onde a pessoa pode experimentar algo diferente daquilo que aprendeu no passado.

Em vez da mensagem:

“Se me conhecerem verdadeiramente, vão rejeitar-me.”

Começa lentamente a surgir outra possibilidade:

“Posso mostrar quem sou e continuar a ser aceite.”

Esta mudança nem sempre acontece de forma rápida.

Mas cada experiência de respeito, validação e aceitação ajuda a enfraquecer as antigas expectativas de rejeição.

Pequenas experiências podem produzir grandes mudanças

Muitas vezes imaginamos a cura como um grande momento transformador.

Na realidade, ela acontece frequentemente através de pequenas experiências repetidas.

Uma conversa onde nos sentimos verdadeiramente escutados.

Uma amizade onde não precisamos de usar máscaras.

Um grupo onde percebemos que não estamos sozinhos.

Uma relação em que podemos dizer o que sentimos sem medo de perder o lugar que ocupamos.

São estes momentos, aparentemente simples, que ajudam o cérebro a aprender uma nova forma de estar no mundo.

A esperança também se aprende

Aquilo que foi aprendido pode ser transformado.

As experiências difíceis deixam marcas, mas não determinam necessariamente o futuro.

Com relações seguras, apoio adequado e experiências consistentes de aceitação, é possível desenvolver uma maior sensação de segurança, confiança e pertença.

Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Será que vou voltar a ser rejeitado?”

Mas antes:

“Que pessoas e que espaços me ajudam a descobrir que posso ser eu próprio e continuar a pertencer?”

Porque a saúde mental não se constrói apenas pela ausência de sofrimento.

Constrói-se também através da presença de relações que nos mostram, repetidamente, que somos dignos de respeito, aceitação e ligação.

Dra. Margarida Martins