Quando pensamos em começar terapia, é natural termos algumas perguntas.
Como funciona a terapia? O que acontece numa consulta? O psicólogo vai dizer-me o que devo fazer? Vou descobrir finalmente a origem dos meus problemas?
Muitas pessoas chegam à psicoterapia à procura de uma resposta.
Querem compreender por que razão sofrem, perceber de onde vêm determinados sentimentos ou comportamentos e, sobretudo, deixar de repetir padrões que sabem que não lhes fazem bem.
Mas a terapia não funciona como uma fórmula para apagar aquilo que aconteceu.
A psicoterapia não muda o passado.
Pode, no entanto, ajudar-nos a compreender a nossa história, a reconhecer padrões e a construir novas formas de responder ao presente.
O que acontece numa terapia?
A psicoterapia é um processo de compreensão e mudança.
Ao longo das sessões, o psicólogo e a pessoa acompanhada procuram compreender aquilo que está a acontecer, explorar pensamentos, emoções, comportamentos e relações e identificar padrões que possam estar a contribuir para o sofrimento.
Não existe necessariamente uma sequência igual para todas as pessoas.
O processo depende das dificuldades apresentadas, dos objetivos definidos, da abordagem terapêutica e da própria pessoa.
Por isso, não existe uma sessão de terapia “igual” para toda a gente.
Em alguns momentos, pode ser importante falar sobre acontecimentos do passado.
Noutros, compreender aquilo que está a acontecer no presente.
Pode haver momentos de reflexão, perguntas, exercícios, aprendizagem de estratégias ou simplesmente espaço para organizar aquilo que está a ser vivido.
O objetivo não é dar respostas prontas.
É ajudar a pessoa a construir uma compreensão mais clara de si própria e a desenvolver novas possibilidades.
A terapia não apaga o passado
Por vezes, existe a expectativa de que a terapia permita finalmente “ultrapassar” aquilo que aconteceu.
Mas ultrapassar não significa apagar.
Aquilo que vivemos faz parte da nossa história.
Experiências de infância, relações, perdas, rejeições, situações traumáticas, aprendizagens familiares e outras experiências significativas podem influenciar a forma como interpretamos o mundo, nos relacionamos com os outros e reagimos às situações.
Ao longo do tempo, algumas destas respostas tornam-se tão familiares que passam a acontecer quase automaticamente.
E quando uma resposta se torna automática, podemos deixar de perceber que existem outras possibilidades.
Porque repetimos comportamentos que sabemos que nos fazem mal?
Esta é uma das questões que muitas pessoas levam para a terapia.
“Eu sei que isto me faz mal. Então porque continuo a fazê-lo?”
Saber racionalmente aquilo que seria melhor fazer nem sempre é suficiente para conseguirmos mudar.
Podemos compreender perfeitamente que determinada forma de pensar não é útil.
Podemos saber que determinada relação não nos faz bem.
Podemos até decidir que, da próxima vez, vamos reagir de maneira diferente.
E, quando chega o momento, fazemos novamente aquilo que sempre fizemos.
Isto acontece porque os nossos padrões de pensamento e comportamento não são apenas decisões conscientes.
São também respostas aprendidas e repetidas ao longo do tempo.
Pensemos numa maçaneta.
Imagine que durante anos abre uma determinada porta utilizando uma maçaneta de alavanca.
O movimento tornou-se automático.
A mão aproxima-se e faz aquele gesto sem que precise de pensar.
Um dia, a maçaneta é substituída por outra completamente diferente.
Sabemos que mudou.
Olhamos para ela e percebemos racionalmente que temos de fazer outro movimento.
Mas, nas primeiras vezes, é provável que a nossa mão continue a procurar fazer o gesto antigo.
O cérebro aprendeu aquele movimento.
E precisa de tempo e repetição para aprender o novo.
Com alguns dos nossos pensamentos e comportamentos acontece algo semelhante.
Compreender não é o mesmo que conseguir mudar
Uma das coisas importantes que podemos descobrir na terapia é que compreender um padrão não significa conseguir modificá-lo imediatamente.
Podemos perceber:
“Quando sinto que alguém se afasta, interpreto imediatamente que já não gosta de mim.”
Ou:
“Quando tenho medo de falhar, acabo por evitar a situação.”
Ou ainda:
“Quando fico zangado, afasto-me antes de conseguir explicar aquilo que estou a sentir.”
Reconhecer o padrão é um passo importante.
Mas o cérebro pode continuar a produzir a resposta habitual.
É como saber que a maçaneta mudou e, mesmo assim, continuar a tentar abri-la da forma antiga.
A mudança acontece quando começamos a interromper a resposta automática e a experimentar novas formas de responder.
E isso precisa de prática.
O papel do psicólogo no processo terapêutico
O psicólogo pode ajudar a identificar padrões, explorar experiências, questionar interpretações e compreender a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos.
Pode ajudar a pessoa a perceber coisas que, sozinha, talvez fosse mais difícil observar.
Por exemplo:
- identificar pensamentos automáticos;
- reconhecer padrões repetitivos;
- compreender determinadas reações emocionais;
- explorar experiências passadas e a sua influência no presente;
- questionar interpretações que podem estar a aumentar o sofrimento;
- desenvolver estratégias diferentes para lidar com determinadas situações;
- experimentar novas formas de comportamento.
Mas a terapia não é algo que o psicólogo “faz” à pessoa.
É um trabalho conjunto.
O psicólogo traz conhecimento, experiência clínica e ferramentas terapêuticas.
A pessoa traz a sua experiência, os seus objetivos, as suas dificuldades e a disponibilidade para se envolver no processo.
A mudança acontece também fora da sessão
Uma sessão pode ajudar-nos a compreender algo importante.
Podemos sair da consulta com uma nova perspetiva ou perceber pela primeira vez um padrão que antes não reconhecíamos.
Mas a mudança não acontece apenas durante os minutos em que estamos no consultório.
Acontece também quando, no dia a dia, começamos a reparar naquele pensamento automático.
Quando fazemos uma pausa antes de reagir.
Quando experimentamos dizer aquilo que sentimos em vez de nos afastarmos.
Quando estabelecemos um limite.
Quando enfrentamos uma situação que habitualmente evitaríamos.
Quando conseguimos fazer uma escolha diferente, mesmo que inicialmente pareça estranha.
É através dessas experiências que uma nova resposta começa, progressivamente, a tornar-se mais familiar.
A terapia pode ser desconfortável?
Pode.
E isso não significa necessariamente que alguma coisa esteja a correr mal.
Mudar padrões que nos acompanham há muito tempo pode ser desconfortável.
Por vezes, a terapia implica olhar para experiências dolorosas, questionar ideias que temos sobre nós próprios ou experimentar comportamentos diferentes daqueles que aprendemos.
Pode existir resistência.
Pode existir medo.
Pode haver momentos em que sentimos que estamos a avançar e outros em que parece que voltámos ao ponto de partida.
A mudança raramente é completamente linear.
O importante é que exista um espaço terapêutico onde essas dificuldades possam ser compreendidas e trabalhadas.
Quanto tempo demora a terapia a fazer efeito?
Não existe um período de tempo igual para todas as pessoas.
A duração da psicoterapia depende de vários fatores, incluindo o motivo pelo qual a pessoa procura ajuda, a natureza e intensidade das dificuldades, os objetivos definidos e o tipo de intervenção.
Algumas pessoas procuram terapia para trabalhar uma questão específica e podem beneficiar de uma intervenção mais breve.
Outras necessitam de um acompanhamento mais prolongado.
Por isso, é mais útil pensar na terapia como um processo, e não como um número fixo de sessões até “ficar bem”.
Também é importante compreender que a mudança pode acontecer de formas diferentes.
Às vezes, começa por uma maior capacidade de reconhecer aquilo que sentimos.
Depois, podemos começar a compreender melhor os nossos padrões.
E, progressivamente, conseguimos responder de forma diferente.
Afinal, como funciona a terapia?
A psicoterapia não consiste em encontrar uma explicação perfeita para tudo o que nos acontece.
Também não significa aprender a controlar todos os pensamentos ou deixar de sentir emoções difíceis.
É um processo de compreender, experimentar e mudar.
O passado continua a fazer parte da nossa história.
Mas podemos trabalhar a forma como essa história influencia o presente.
Podemos aprender a reconhecer aquilo que fazemos automaticamente.
Podemos questionar algumas das interpretações que damos às situações.
Podemos experimentar respostas diferentes.
E, com repetição e tempo, aquilo que inicialmente parece estranho pode começar a tornar-se natural.
Mudar é aprender uma nova forma de abrir a porta
Talvez seja esta a melhor forma de pensar na mudança em psicoterapia.
Durante muito tempo, aprendemos a abrir determinadas “portas” sempre da mesma maneira.
A terapia pode ajudar-nos a perceber que existem outras formas.
No início, o novo movimento pode parecer estranho.
Podemos até voltar várias vezes ao gesto antigo.
Mas cada vez que paramos, reconhecemos o padrão e experimentamos uma resposta diferente, estamos a ensinar ao cérebro uma nova possibilidade.
Mudar não é negar o passado.
É deixar de permitir que aquilo que vivemos determine automaticamente todas as nossas respostas no presente.
Porque, por vezes, a mudança começa simplesmente quando percebemos que a maçaneta mudou — e que também podemos aprender um novo movimento.
Perguntas frequentes sobre como funciona a terapia
O que acontece numa primeira consulta de psicologia?
A primeira consulta é geralmente um momento de conhecimento mútuo, compreensão do motivo que levou à procura de ajuda e definição inicial dos objetivos do acompanhamento. O processo pode variar de acordo com a pessoa e o contexto.
O psicólogo vai dizer-me o que devo fazer?
O psicólogo não deve simplesmente dar respostas ou tomar decisões pela pessoa. O seu papel é ajudar a compreender melhor a situação, explorar possibilidades e desenvolver recursos para que a própria pessoa possa tomar decisões mais conscientes.
Tenho de falar sobre o meu passado na terapia?
Nem sempre. Depende dos objetivos da intervenção e daquilo que é clinicamente relevante. Quando experiências passadas influenciam o sofrimento atual, podem ser exploradas, mas a terapia não implica obrigatoriamente falar detalhadamente sobre tudo o que aconteceu.
Porque é que continuo a fazer aquilo que sei que me faz mal?
Porque saber racionalmente que um comportamento não é útil não significa que consigamos interromper automaticamente um padrão aprendido. A psicoterapia pode ajudar a reconhecer esses padrões e a desenvolver e praticar respostas alternativas.
A terapia muda a nossa personalidade?
O objetivo da psicoterapia não é transformar uma pessoa noutra. É ajudá-la a compreender-se melhor, desenvolver recursos e encontrar formas mais flexíveis e ajustadas de lidar consigo própria, com os outros e com as situações que enfrenta.