Dra. Margarida Martins

Como funciona a terapia? O que acontece numa sessão de psicoterapia?

Como funciona a terapia? O que acontece numa consulta de psicologia? O psicólogo vai dizer-me o que devo fazer? Vou finalmente descobrir porque me sinto assim?

Estas são algumas das perguntas que podem surgir quando pensamos em começar psicoterapia.

Muitas pessoas chegam à terapia à procura de uma resposta.

Querem compreender por que razão sofrem, descobrir a origem daquilo que sentem ou deixar de repetir comportamentos que sabem que não lhes fazem bem.

Mas a terapia não funciona como uma fórmula que apaga o passado ou nos dá respostas prontas.

A terapia não muda aquilo que aconteceu.

Pode, sim, ajudar-nos a olhar para a nossa história de outra forma e a compreender como aquilo que vivemos continua, por vezes, a influenciar a forma como pensamos, sentimos e agimos no presente.

O que acontece numa terapia?

A psicoterapia é um processo de compreensão e mudança.

Ao longo das sessões, o psicólogo e a pessoa acompanhada procuram compreender aquilo que está a acontecer, explorar pensamentos, emoções, comportamentos e relações e identificar padrões que possam estar a contribuir para o sofrimento.

Não existe uma sessão de terapia igual para todas as pessoas.

O processo depende das dificuldades apresentadas, dos objetivos definidos, da fase de vida em que a pessoa se encontra e da abordagem terapêutica utilizada.

Por isso, uma consulta pode incluir diferentes coisas.

Pode haver momentos em que se fala sobre acontecimentos do passado, outros em que se procura compreender aquilo que está a acontecer no presente e outros ainda em que se experimentam estratégias ou novas formas de responder a determinadas situações.

O objetivo não é simplesmente encontrar “a resposta certa”.

É ajudar a pessoa a compreender-se melhor e a construir novas possibilidades.

A terapia não apaga o passado

Por vezes, existe a ideia de que fazer terapia significa deixar o passado para trás.

Mas o passado não pode ser apagado.

Aquilo que vivemos faz parte da nossa história e pode influenciar a forma como interpretamos o mundo, nos relacionamos com os outros e reagimos às situações.

Experiências de infância, relações familiares, perdas, rejeições, situações dolorosas ou acontecimentos significativos podem deixar aprendizagens que continuam presentes mesmo quando já não percebemos claramente de onde vêm.

É também por isso que determinadas reações podem parecer automáticas.

Podemos saber racionalmente que uma determinada situação é segura e, ainda assim, sentir medo.

Podemos saber que determinada forma de reagir não nos ajuda e, mesmo assim, voltar a fazê-lo.

Podemos querer relacionar-nos de uma maneira diferente e acabar por repetir padrões que conhecemos há muitos anos.

Porque repetimos comportamentos que sabemos que nos fazem mal?

Esta é uma pergunta muito comum.

“Eu sei que isto não me faz bem. Então porque continuo a fazê-lo?”

Porque saber alguma coisa racionalmente não significa que o nosso cérebro consiga imediatamente agir de acordo com esse conhecimento.

Muitos dos nossos pensamentos e comportamentos foram aprendidos através da repetição.

E aquilo que repetimos muitas vezes pode tornar-se automático.

Pensemos numa maçaneta.

Imagine que durante anos abre uma determinada porta com uma maçaneta de alavanca.

O movimento torna-se automático.

A mão aproxima-se e faz aquele gesto sem que precise de pensar.

Um dia, a maçaneta é substituída por outra diferente.

Sabemos que mudou.

Olhamos para ela e percebemos racionalmente que temos de fazer outro movimento.

Mas, nas primeiras vezes, é provável que a nossa mão continue a procurar fazer o gesto antigo.

O cérebro aprendeu aquele movimento.

Precisa de tempo e repetição para aprender o novo.

Com alguns dos nossos pensamentos, emoções e comportamentos acontece algo semelhante.

Compreender não significa conseguir mudar imediatamente

Na terapia, podemos perceber que existe outra forma de interpretar uma situação.

Podemos reconhecer que determinada reação é automática.

Podemos compreender que um comportamento que utilizamos para nos proteger está, neste momento, a provocar sofrimento.

Mas perceber tudo isto durante uma sessão não significa que, no dia seguinte, consigamos agir de forma completamente diferente.

Compreender é importante. Mas é apenas uma parte da mudança.

É necessário reconhecer o padrão, interromper progressivamente a resposta automática e experimentar novas formas de pensar, sentir e agir.

E isso requer prática.

Por exemplo, uma pessoa pode perceber que, sempre que sente que alguém se afasta, interpreta imediatamente essa distância como rejeição.

Pode compreender que existem outras explicações possíveis.

Mas, quando essa situação volta a acontecer, o primeiro pensamento pode continuar a ser:

“Já não gosta de mim.”

A diferença começa quando a pessoa consegue reconhecer esse pensamento antes de agir automaticamente a partir dele.

Pode então parar.

Questionar.

Procurar outras interpretações.

E experimentar uma resposta diferente.

É assim que uma nova forma de reagir começa, pouco a pouco, a tornar-se mais familiar.

O papel do psicólogo na terapia

O psicólogo não está ali simplesmente para dar conselhos.

O seu papel passa por ajudar a pessoa a compreender aquilo que está a viver, identificar padrões, explorar emoções, questionar determinadas interpretações e desenvolver recursos que possam ser úteis no seu dia a dia.

Dependendo das necessidades da pessoa, o processo terapêutico pode envolver:

  • identificação de pensamentos automáticos;
  • exploração de emoções;
  • compreensão de padrões de comportamento;
  • reflexão sobre relações;
  • desenvolvimento de estratégias de regulação emocional;
  • aprendizagem de novas formas de responder às situações;
  • trabalho sobre acontecimentos passados que continuam a ter impacto no presente.

Quando, por exemplo, uma criança ou adolescente apresenta determinados comportamentos, também pode ser importante procurar compreender o que aquele comportamento está a comunicar ou a tentar resolver, em vez de olhar apenas para o comportamento que queremos eliminar.

Se este tema lhe interessa, pode também ler o artigo [“Quando o comportamento da criança é um pedido de ajuda”], publicado no blogue.

A terapia é um trabalho conjunto

A psicoterapia não é algo que o psicólogo “faz” à pessoa.

É um trabalho conjunto.

O psicólogo traz conhecimento, experiência clínica e ferramentas terapêuticas.

A pessoa traz a sua experiência, os seus objetivos, as suas dificuldades e aquilo que está disponível para explorar.

Por isso, a mudança também exige participação.

Às vezes, isso significa observar durante a semana aquilo que acontece quando surge determinada emoção.

Outras vezes, pode significar experimentar uma resposta diferente.

Pode ser estabelecer um limite.

Expressar uma necessidade.

Fazer uma pergunta em vez de assumir uma resposta.

Permitir-se sentir uma emoção sem tentar imediatamente eliminá-la.

A mudança acontece, muitas vezes, nestes pequenos momentos.

A mudança não acontece apenas dentro do consultório

Uma consulta pode ajudar-nos a compreender algo importante.

Podemos sair da sessão com uma nova perspetiva ou perceber, pela primeira vez, um padrão que anteriormente não reconhecíamos.

Mas a mudança acontece também fora da consulta.

Acontece quando, no dia a dia, começamos a reparar naquele pensamento automático.

Quando fazemos uma pausa antes de reagir.

Quando conseguimos responder de maneira diferente.

Quando enfrentamos uma situação que habitualmente evitaríamos.

Quando percebemos que estamos a repetir um padrão e escolhemos experimentar outra possibilidade.

É através destas experiências repetidas que o novo comportamento começa, progressivamente, a deixar de parecer estranho.

E quando estamos a passar por uma situação particularmente difícil?

Nem todas as pessoas procuram terapia pelo mesmo motivo.

Há quem procure ajuda porque sente ansiedade ou tristeza persistente.

Há quem esteja a atravessar uma perda.

Há quem esteja emocionalmente esgotado.

Há quem esteja a enfrentar uma mudança de vida ou uma dificuldade numa relação.

E há também quem simplesmente sinta que deixou de conseguir lidar sozinho com aquilo que está a acontecer.

O acompanhamento psicológico pode adaptar-se a diferentes momentos e necessidades.

Por exemplo, no caso do luto, a terapia pode ajudar a pessoa a adaptar-se à perda e à mudança, respeitando o seu ritmo e a sua experiência.

No blogue, pode encontrar também o artigo [“O que pode ajudar durante o luto? Estratégias para cuidar de si”].

A terapia pode ser desconfortável?

Pode.

E isso não significa necessariamente que esteja a correr mal.

Mudar padrões que nos acompanham há muito tempo pode ser desconfortável.

Por vezes, a terapia implica olhar para experiências dolorosas, questionar ideias que temos sobre nós próprios ou experimentar comportamentos diferentes daqueles que aprendemos.

Pode haver momentos de resistência.

Pode haver medo.

Pode haver sessões em que sentimos que avançámos e outras em que parece que voltámos atrás.

A mudança raramente acontece de forma completamente linear.

O importante é existir um espaço terapêutico onde essas dificuldades possam ser compreendidas e trabalhadas.

E é também por isso que a relação terapêutica é tão importante.

Quando existe confiança suficiente para falar sobre aquilo que sentimos, incluindo dúvidas ou desconfortos relativamente à própria terapia, a relação pode tornar-se parte do processo de mudança.

Pode ler mais sobre este tema no artigo [“O que é a relação terapêutica e como funciona?”].

Quanto tempo demora a terapia a fazer efeito?

Não existe um número de sessões que funcione da mesma forma para todas as pessoas.

A duração da psicoterapia depende de vários fatores: o motivo pelo qual a pessoa procura ajuda, a natureza e intensidade das dificuldades, os objetivos definidos, a abordagem terapêutica e a evolução do próprio processo.

Algumas pessoas procuram acompanhamento para trabalhar uma questão específica.

Outras necessitam de um processo mais prolongado.

Por isso, talvez seja mais útil pensar na terapia como um processo de mudança, e não como uma contagem de sessões até “ficar bem”.

A mudança pode começar de formas muito diferentes.

Às vezes, começa quando conseguimos dar um nome àquilo que sentimos.

Depois, quando percebemos um padrão.

Mais tarde, quando conseguimos experimentar uma resposta diferente.

E, pouco a pouco, essa nova resposta pode tornar-se mais natural.

Afinal, como funciona a terapia?

A psicoterapia não consiste em encontrar uma explicação perfeita para tudo aquilo que nos acontece.

Também não significa deixar de sentir emoções difíceis ou controlar todos os nossos pensamentos.

É um processo de compreender, experimentar e mudar.

O passado continua a fazer parte da nossa história.

Mas podemos trabalhar a forma como essa história influencia o presente.

Podemos aprender a reconhecer aquilo que fazemos automaticamente.

Podemos questionar algumas das interpretações que damos às situações.

Podemos experimentar respostas diferentes.

E, com tempo e repetição, aquilo que inicialmente parece estranho pode começar a tornar-se natural.

Mudar é aprender uma nova forma de abrir a porta

Talvez seja esta a melhor forma de pensar na mudança em psicoterapia.

Durante muito tempo, aprendemos a abrir determinadas “portas” sempre da mesma maneira.

A terapia pode ajudar-nos a perceber que existem outras formas.

No início, o novo movimento pode parecer estranho.

Podemos até voltar várias vezes ao gesto antigo.

Mas cada vez que paramos, reconhecemos o padrão e experimentamos uma resposta diferente, estamos a ensinar ao cérebro uma nova possibilidade.

Mudar não é negar o passado.

É deixar de permitir que aquilo que vivemos determine automaticamente todas as nossas respostas no presente.

Porque, por vezes, a mudança começa simplesmente quando percebemos que a maçaneta mudou — e que também podemos aprender um novo movimento.


Perguntas frequentes sobre como funciona a terapia

O que acontece numa primeira consulta de psicologia?

A primeira consulta é geralmente um momento de conhecimento mútuo, compreensão do motivo que levou à procura de ajuda e definição inicial dos objetivos do acompanhamento. O processo pode variar de acordo com a pessoa e as suas necessidades.

O psicólogo vai dizer-me o que devo fazer?

O papel do psicólogo não é simplesmente dar respostas ou tomar decisões pela pessoa. É ajudar a compreender melhor a situação, explorar possibilidades e desenvolver recursos que permitam tomar decisões mais conscientes.

Tenho de falar sobre o meu passado na terapia?

Não necessariamente. Depende dos objetivos da intervenção e daquilo que é relevante para compreender as dificuldades atuais. Quando experiências passadas continuam a influenciar o presente, podem ser exploradas, mas a terapia não significa obrigatoriamente falar detalhadamente sobre tudo o que aconteceu.

Porque continuo a fazer aquilo que sei que me faz mal?

Porque os comportamentos e pensamentos podem tornar-se padrões automáticos através da repetição. Saber racionalmente que algo não nos faz bem é importante, mas a mudança também implica praticar novas formas de responder.

A terapia muda a nossa personalidade?

O objetivo da psicoterapia não é transformar uma pessoa noutra. É ajudá-la a compreender-se melhor, desenvolver recursos e encontrar formas mais flexíveis e ajustadas de lidar consigo própria, com os outros e com as situações que enfrenta.

Quando devo procurar ajuda psicológica?

Não é necessário esperar até sentir que “já não aguenta mais”. A procura de acompanhamento psicológico pode acontecer sempre que uma pessoa percebe que está a ter dificuldades em lidar com uma situação, emoção, relação ou mudança e sente que beneficiaria de apoio profissional.

Dra. Margarida Martins