Dra. Margarida Martins

Burnout profissional: quando o trabalho começa a esgotar-nos

É natural sentirmo-nos cansados depois de um dia exigente.

Há períodos em que o trabalho exige mais de nós, em que os prazos se acumulam, as responsabilidades aumentam ou atravessamos uma fase particularmente intensa. Habitualmente, o descanso, o fim de semana ou alguns dias de férias ajudam-nos a recuperar.

Mas quando o cansaço se torna persistente e deixa de desaparecer com o descanso, pode ser importante olhar para o que está a acontecer.

O burnout profissional, também conhecido como esgotamento profissional, não é simplesmente estar cansado do trabalho. É uma resposta a uma situação de stress crónico no contexto profissional que não foi adequadamente gerida.

O que é o burnout profissional?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o burnout como um fenómeno ocupacional associado ao stress crónico no trabalho que não foi gerido com sucesso.

O burnout não é considerado uma doença, mas pode ter consequências importantes no bem-estar, no funcionamento profissional e na vida pessoal.

Caracteriza-se por três dimensões principais:

1. Exaustão física e emocional

A pessoa sente que já não tem energia para enfrentar mais um dia de trabalho.

Pode existir uma sensação constante de esgotamento, dificuldade em recuperar mesmo depois de descansar e a perceção de que as exigências profissionais ultrapassaram os recursos disponíveis.

Podem também surgir alterações do sono, tensão muscular, dores de cabeça, irritabilidade e dificuldades de concentração.

Nem sempre a pessoa consegue identificar imediatamente o que está a acontecer. Por vezes, começa apenas por sentir que “já não consegue trabalhar como antes”.

2. Distanciamento emocional do trabalho

Outra dimensão do burnout é a alteração da relação com o próprio trabalho.

Pode surgir irritabilidade, indiferença, cinismo ou uma atitude cada vez mais negativa em relação ao trabalho, aos colegas ou às pessoas com quem se trabalha.

Alguém que anteriormente se envolvia e preocupava com aquilo que fazia pode começar a pensar:

“Faço apenas o necessário.”

“Já não quero saber.”

“Não tenho paciência para isto.”

Este afastamento pode funcionar como uma tentativa de proteção perante uma sobrecarga que se tornou difícil de suportar.

3. Diminuição da eficácia profissional

O esgotamento também pode afetar a forma como a pessoa trabalha.

Tarefas que antes eram realizadas com facilidade passam a exigir muito mais esforço. A concentração diminui, podem surgir mais erros e a produtividade pode baixar.

A pessoa pode começar a sentir-se menos competente, perder a motivação e questionar as suas próprias capacidades.

Pode instalar-se um ciclo difícil: quanto mais esgotada se sente, mais difícil se torna trabalhar; quanto mais difícil se torna trabalhar, maior pode ser a sensação de incompetência.

Quais são as causas do burnout?

O burnout não acontece simplesmente porque alguém “não sabe lidar com a pressão”.

As condições em que trabalhamos podem ter um papel fundamental no desenvolvimento do esgotamento profissional.

Entre os fatores que podem contribuir para o burnout encontram-se:

  • excesso de trabalho;
  • horários prolongados;
  • falta de autonomia;
  • objetivos irrealistas;
  • pressão constante;
  • conflitos no local de trabalho;
  • insegurança profissional;
  • falta de reconhecimento;
  • dificuldade em estabelecer limites;
  • pouca possibilidade de descanso e recuperação.

Por isso, falar de burnout implica olhar não apenas para a pessoa, mas também para o contexto profissional em que essa pessoa está inserida.

Uma pessoa pode ter excelentes estratégias de coping e, ainda assim, estar exposta durante demasiado tempo a condições de trabalho que ultrapassam aquilo que consegue sustentar.

Burnout não é simplesmente cansaço

Todos podemos ter períodos de maior cansaço no trabalho.

A diferença está, em grande medida, na capacidade de recuperação.

Depois de uma fase mais exigente, conseguimos descansar e, gradualmente, recuperar energia.

No burnout, a sensação de esgotamento tende a persistir. O trabalho pode continuar presente mentalmente mesmo depois de terminar o horário e a pessoa pode sentir que nunca tem verdadeiramente tempo para recuperar.

O cansaço deixa de ser apenas uma consequência de um dia difícil e começa a interferir com outras áreas da vida.

O sono, as relações, a disponibilidade emocional, a concentração e até o prazer em atividades que anteriormente proporcionavam satisfação podem ser afetados.

As férias resolvem o burnout?

O descanso é importante e pode ajudar na recuperação.

No entanto, umas férias podem não ser suficientes quando a pessoa regressa exatamente às mesmas condições que contribuíram para o seu esgotamento.

Se o problema envolve excesso de trabalho, falta de autonomia, horários prolongados ou ausência de limites, descansar durante alguns dias não elimina necessariamente esses fatores.

A recuperação pode exigir mudanças na organização do trabalho, redistribuição de responsabilidades, definição de limites e criação de condições que permitam uma verdadeira recuperação.

Em algumas situações, pode também ser importante procurar acompanhamento psicológico ou médico.

O que podemos fazer perante sinais de burnout?

O primeiro passo pode ser reconhecer que alguma coisa mudou.

Em vez de normalizar permanentemente o cansaço, pode ser importante perguntar:

Há quanto tempo me sinto assim?

Consigo recuperar quando descanso?

A forma como me relaciono com o trabalho mudou?

Tenho energia para as outras áreas da minha vida?

As exigências do meu trabalho são compatíveis com os recursos que tenho disponíveis?

Estas perguntas não permitem, por si só, fazer um diagnóstico, mas podem ajudar a identificar sinais de alerta.

A intervenção pode envolver diferentes dimensões: estabelecer limites, reorganizar tarefas e horários, procurar apoio no contexto profissional, reforçar a rede de suporte e, quando necessário, recorrer a acompanhamento psicológico ou médico.

É importante lembrar que a responsabilidade pela prevenção e pela resposta ao burnout não deve recair exclusivamente sobre o trabalhador. As organizações e as condições de trabalho também têm um papel fundamental.

Quando o trabalho começa a ocupar demasiado espaço

O trabalho faz parte da nossa vida, mas não deveria consumir todos os recursos de que precisamos para viver o resto dela.

Quando acordar para ir trabalhar se torna difícil, quando o descanso já não permite recuperar, quando a irritabilidade aumenta ou quando começamos a sentir que já não somos capazes de fazer aquilo que antes fazíamos, talvez seja altura de parar e prestar atenção.

Reconhecer os sinais de burnout profissional precocemente pode permitir procurar ajuda e fazer mudanças antes que o esgotamento tenha consequências mais profundas na saúde, nas relações e na vida profissional.

Nenhum trabalho deve exigir a perda da nossa saúde.

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O esgotamento pode surgir em diferentes contextos da vida. Se é pai ou mãe e sente que as exigências da parentalidade estão a ultrapassar os seus recursos emocionais, pode também ler o artigo [Burnout parental: quando ser pai ou mãe se torna emocionalmente esgotante].


Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação psicológica ou médica.

Dra. Margarida Martins