A palavra burnout é cada vez mais utilizada quando falamos de cansaço, sobrecarga e esgotamento.
Muitas vezes associamo-la imediatamente ao trabalho. Mas podemos sentir-nos profundamente esgotados em diferentes áreas da nossa vida: nos estudos, na parentalidade, enquanto cuidadores, numa relação ou até na prática desportiva.
Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheça o burnout especificamente como um fenómeno ocupacional associado ao stress crónico no trabalho que não foi adequadamente gerido, a expressão é também utilizada na investigação e na prática para descrever estados semelhantes de esgotamento associados a outros contextos.
O que estes contextos podem ter em comum?
Um desequilíbrio persistente entre as exigências que sentimos e os recursos que temos disponíveis para lhes responder.
Burnout profissional
No contexto profissional, o burnout está associado a uma situação prolongada de stress no trabalho e caracteriza-se por três dimensões principais: exaustão, distanciamento mental em relação ao trabalho e diminuição da eficácia profissional.
A pessoa pode sentir-se constantemente cansada, mais irritável ou emocionalmente distante do trabalho e começar a ter dificuldades de concentração, perda de motivação ou a sensação de que já não consegue desempenhar as suas funções como anteriormente.
O burnout profissional não significa simplesmente estar cansado depois de um dia difícil.
O problema surge quando o esgotamento se torna persistente e a pessoa deixa de conseguir recuperar adequadamente.
Pode estar relacionado com excesso de trabalho, horários prolongados, falta de autonomia, objetivos irrealistas, conflitos, insegurança profissional, ausência de reconhecimento ou poucas oportunidades de descanso.
Pode ler mais sobre este tema no artigo [Burnout profissional: quando o trabalho começa a esgotar-nos].
Burnout académico
Estudar também pode tornar-se uma fonte de sobrecarga.
O burnout académico pode surgir quando as exigências escolares ou universitárias ultrapassam, de forma persistente, os recursos do estudante.
A pressão das avaliações, o excesso de trabalhos, a competição, o medo de falhar e a dificuldade em conciliar os estudos com outras áreas da vida podem contribuir para um estado de esgotamento.
Entre os sinais podem encontrar-se:
- exaustão física e emocional;
- dificuldades de concentração;
- perda de motivação;
- evitamento das tarefas;
- dificuldades em iniciar ou terminar trabalhos;
- sensação de incompetência;
- perda do interesse pelos estudos.
Por vezes, aquilo que parece preguiça ou falta de interesse pode estar relacionado com esgotamento.
Um estudante que passa cada vez mais tempo a evitar estudar nem sempre está a escolher não fazer. Pode estar a sentir que já não tem recursos para continuar a responder às exigências.
Burnout parental
A parentalidade também pode envolver uma carga física e emocional muito elevada.
O burnout parental pode surgir quando as exigências associadas ao exercício da parentalidade se tornam persistentes e ultrapassam os recursos disponíveis para lidar com elas.
Pode existir uma sensação de estar permanentemente cansado, de nunca conseguir desligar ou de estar sempre a responder às necessidades dos outros sem espaço para recuperar.
A culpa pode tornar esta experiência ainda mais difícil.
É possível amar profundamente os filhos e, ao mesmo tempo, sentir-se esgotado com as exigências da parentalidade.
Estar cansado de cuidar não significa estar cansado dos filhos.
No blogue, pode aprofundar este tema no artigo [Burnout parental: quando ser pai ou mãe se torna emocionalmente esgotante].
Burnout do cuidador
Cuidar de uma pessoa doente, dependente ou com necessidades específicas pode exigir uma presença física e emocional constante.
O burnout do cuidador pode surgir quando esta responsabilidade se prolonga no tempo e existe pouco espaço para descanso, apoio ou recuperação.
O cuidador pode começar a sentir:
- cansaço físico e emocional persistente;
- irritabilidade ou impaciência;
- alterações do sono;
- dificuldades de concentração;
- isolamento social;
- culpa por querer descansar;
- dificuldade em cuidar da própria saúde;
- distanciamento emocional da pessoa cuidada.
A culpa pode ser particularmente importante neste contexto.
Pode surgir a ideia de que pedir ajuda significa abandonar a pessoa ou que descansar significa gostar menos dela.
Mas a sobrecarga não resulta da falta de amor.
Pode resultar da intensidade e duração dos cuidados, da falta de apoio, das dificuldades económicas ou da acumulação de responsabilidades.
Partilhar tarefas, aceitar ajuda, preservar momentos pessoais e procurar apoio psicológico ou médico quando necessário pode ser importante para reduzir esta sobrecarga.
Burnout conjugal
A expressão burnout conjugal é utilizada para descrever estados de desgaste emocional intenso no contexto de uma relação.
Pode desenvolver-se quando os conflitos se tornam repetitivos, as necessidades emocionais permanecem sem resposta ou quando um dos elementos sente que está a sustentar sozinho grande parte da relação.
Pode manifestar-se através de:
- cansaço emocional;
- irritabilidade frequente;
- comunicação distante ou conflituosa;
- diminuição da intimidade;
- indiferença;
- perda de esperança na relação.
É importante, contudo, não transformar esta expressão num diagnóstico.
Burnout conjugal não é um diagnóstico clínico autónomo e não significa necessariamente que a relação tenha de terminar.
Pode ser um sinal de que existe uma dinâmica relacional que precisa de ser compreendida e cuidada.
Burnout desportivo
O desporto pode promover saúde, prazer e bem-estar, mas a prática desportiva de alto rendimento também pode envolver exigências muito elevadas.
O burnout desportivo pode surgir quando a intensidade dos treinos, a pressão pelos resultados e a falta de recuperação ultrapassam os recursos físicos e psicológicos do atleta.
Podem surgir:
- exaustão física e emocional;
- diminuição do rendimento;
- perda do prazer pela modalidade;
- sensação de que o esforço nunca é suficiente;
- desmotivação;
- vontade de abandonar o desporto.
Mais uma vez, não se trata simplesmente de um dia mau ou de uma fase de menor motivação.
É o desgaste persistente que merece atenção.
O que estes diferentes tipos de burnout têm em comum?
Apesar de os contextos serem diferentes, existe uma ideia transversal:
as exigências tornam-se superiores aos recursos disponíveis durante demasiado tempo.
No trabalho, podem ser os prazos, a carga horária ou a falta de autonomia.
Nos estudos, a pressão das avaliações e o medo de falhar.
Na parentalidade, a responsabilidade constante e a falta de descanso.
Nos cuidados, a dependência da pessoa cuidada e a ausência de apoio.
Numa relação, os conflitos persistentes e as necessidades emocionais não atendidas.
No desporto, a pressão competitiva e a insuficiente recuperação.
A origem da sobrecarga é diferente, mas o esgotamento pode começar a afetar a forma como pensamos, sentimos e funcionamos.
Burnout não é uma falha pessoal
Quando estamos esgotados, é fácil transformar o problema numa avaliação sobre nós próprios.
“Devia conseguir.”
“Tenho de ser mais forte.”
“As outras pessoas conseguem.”
“Não posso parar agora.”
Mas o burnout não deve ser entendido simplesmente como uma falha individual ou como falta de capacidade para lidar com a pressão.
É importante olhar para a relação entre a pessoa e o contexto em que está inserida.
Que exigências existem?
Que recursos estão disponíveis?
Existe espaço para descanso?
Existe apoio?
É possível estabelecer limites?
Há possibilidade de partilhar responsabilidades?
Estas perguntas podem ajudar-nos a perceber que, por vezes, não precisamos apenas de aprender a “aguentar melhor”.
Precisamos de mudar alguma coisa nas condições que estão a levar ao esgotamento.
Quando é altura de procurar ajuda?
Sentir cansaço ocasional faz parte da vida.
O que merece atenção é quando o esgotamento se torna persistente e começa a interferir com o sono, as relações, a saúde, a motivação ou a capacidade de funcionar no dia a dia.
Pode ser importante procurar apoio quando sentimos que já não conseguimos recuperar, quando estamos constantemente irritáveis ou emocionalmente desligados, ou quando aquilo que antes nos dava satisfação deixou de ter significado.
Procurar ajuda não significa que falhámos.
Pode significar que reconhecemos os nossos limites e decidimos cuidar deles.
Cuidar dos nossos limites também é cuidar de nós
Nem sempre podemos eliminar as exigências da nossa vida.
Continuaremos a ter trabalho, estudos, filhos, pessoas de quem cuidamos, relações e objetivos.
Mas podemos tentar perceber quando aquilo que estamos a exigir de nós ultrapassa, de forma persistente, aquilo que conseguimos sustentar.
O burnout pode ser um sinal de que alguma coisa precisa de ser revista.
Os limites.
As responsabilidades.
O descanso.
O apoio.
As expectativas.
Ou as próprias condições em que estamos a viver determinada área da nossa vida.
O burnout não é uma falha pessoal.
Pode ser um sinal de que precisamos de parar, olhar para o que está a acontecer e encontrar formas mais sustentáveis de continuar.
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Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação psicológica ou médica.