Dra. Margarida Martins

Autolesão: porque é que alguém se magoa de propósito?

Quando alguém se magoa de propósito, uma das primeiras reações de quem está à sua volta pode ser de incompreensão.

“Porque é que alguém que está a sofrer haveria de se magoar ainda mais?”

Ou, talvez ainda mais comum:

“Está só a querer chamar a atenção.”

Mas a autolesão é muito mais complexa do que isso.

Os comportamentos autolesivos podem ser uma manifestação de sofrimento psicológico e surgir quando uma pessoa sente emoções, pensamentos ou estados internos que, naquele momento, não consegue compreender, expressar ou suportar de outra forma.

Compreender a autolesão não significa considerar este comportamento uma solução adequada. Significa tentar perceber o que está por detrás dele, para que seja possível encontrar formas mais seguras de lidar com o sofrimento.

O que é a autolesão?

A autolesão, também designada por comportamento autolesivo ou automutilação em alguns contextos, refere-se a comportamentos em que uma pessoa provoca intencionalmente algum tipo de dano ao próprio corpo.

Embora seja frequentemente associada aos adolescentes, a autolesão pode acontecer em diferentes idades e em contextos muito diversos.

É importante também fazer uma distinção: autolesão e tentativa de suicídio não são a mesma coisa.

Uma pessoa pode envolver-se em comportamentos autolesivos sem ter intenção de morrer. No entanto, isso não significa que a situação deva ser desvalorizada. A presença de autolesão deve ser levada a sério e merece uma avaliação cuidadosa do sofrimento psicológico, dos riscos associados e das necessidades da pessoa.

Porque é que alguém se magoa de propósito?

Não existe uma única razão.

Cada pessoa tem a sua história, as suas experiências e a sua forma de lidar com aquilo que sente. Por isso, compreender um comportamento autolesivo implica olhar para aquilo que está a acontecer antes, durante e depois do comportamento.

A autolesão pode surgir associada, por exemplo, a:

  • emoções muito intensas que parecem impossíveis de controlar;
  • raiva ou angústia que não encontram outra forma de expressão;
  • sentimentos de vazio ou desconexão;
  • dificuldade em identificar aquilo que se está a sentir;
  • dificuldade em comunicar emoções ou pedir ajuda;
  • pensamentos persistentes e difíceis de interromper;
  • sensação de perda de controlo;
  • necessidade de interromper, ainda que temporariamente, um estado emocional muito intenso;
  • necessidade de recuperar uma sensação de controlo sobre alguma coisa.

Por vezes, a pessoa pode nem conseguir explicar claramente porque o fez.

E isso também é importante.

Nem sempre conseguimos transformar imediatamente o sofrimento em palavras.

A autolesão é uma forma de chamar a atenção?

Não devemos partir desse princípio.

Dizer que alguém se magoa apenas para “chamar a atenção” simplifica um comportamento que pode estar associado a um sofrimento emocional significativo.

Para algumas pessoas, a autolesão pode funcionar como uma tentativa de:

→ aliviar temporariamente uma emoção muito intensa;
→ interromper um estado de grande tensão;
→ lidar com sentimentos difíceis de nomear;
→ sentir alguma coisa quando existe uma sensação de vazio ou desconexão;
→ recuperar uma sensação de controlo;
→ comunicar um sofrimento que não está a conseguir ser expresso através de palavras.

Mesmo quando existe uma dimensão de comunicação do sofrimento, isso não torna a dor menos real.

Pedir ajuda nem sempre começa por dizer:

“Preciso de ajuda.”

Às vezes, começa por um comportamento que nos mostra que alguma coisa não está bem.

Por isso, chamar “manipulação” a um comportamento autolesivo pode afastar precisamente a pessoa que mais precisa de apoio.

O alívio depois da autolesão não significa que o problema desapareceu

Uma das razões pelas quais os comportamentos autolesivos podem tornar-se difíceis de interromper é o alívio que algumas pessoas sentem depois do comportamento.

Pode formar-se um ciclo:

sofrimento intenso → aumento da tensão → impulso para se magoar → comportamento autolesivo → alívio momentâneo → regresso do sofrimento.

O alívio pode ser real.

Mas é temporário.

E é precisamente porque o comportamento pode proporcionar uma redução imediata do sofrimento que pode acabar por se tornar uma estratégia repetida para lidar com emoções difíceis.

Isto ajuda-nos a compreender uma coisa importante:

a pessoa não está necessariamente a procurar a dor. Pode estar a tentar escapar àquilo que sente.

O que acontece antes da autolesão?

Quando se pretende compreender um comportamento autolesivo, não basta perguntar:

“Como fazemos para que isto pare?”

É igualmente importante perguntar:

“O que acontece antes?”

“O que é que esta pessoa está a sentir?”

“O que estava a pensar naquele momento?”

“O que aconteceu nesse dia ou nessas horas?”

“O que é que o comportamento parece proporcionar?”

E, sobretudo:

“Que outras formas podemos construir para lidar com esse sofrimento?”

Esta mudança de perspetiva é fundamental.

Porque retirar apenas o comportamento, sem compreender a função que ele está a desempenhar, pode deixar a pessoa sem outra estratégia para lidar com aquilo que sente.

Como devemos reagir quando alguém se magoa?

Quando descobrimos que alguém se está a magoar, especialmente quando se trata de um adolescente, é natural sentir medo, preocupação ou até raiva.

Mas a primeira resposta pode fazer uma grande diferença.

Frases como:

  • “Estás a fazer isso para chamar a atenção.”
  • “Se voltares a fazer isso, vais ter consequências.”
  • “Tens de parar imediatamente.”
  • “Não tens motivos para fazer isso.”
  • “Isso é uma parvoíce.”

podem aumentar a vergonha e dificultar que a pessoa fale sobre aquilo que está a acontecer.

Sempre que possível, é preferível procurar uma resposta baseada em segurança, escuta e disponibilidade para ajudar.

Não é necessário compreender tudo naquele momento.

Podemos começar simplesmente por transmitir:

“Eu percebo que estás a passar por alguma coisa difícil. Não tens de explicar tudo agora, mas quero ajudar-te.”

Quando procurar ajuda psicológica?

A autolesão é um sinal de que existe algo que merece atenção.

A avaliação psicológica pode ajudar a compreender:

  • quais são os acontecimentos que desencadeiam o comportamento;
  • que emoções e pensamentos estão associados;
  • que função a autolesão está a cumprir;
  • que estratégias de regulação emocional estão disponíveis;
  • que fatores de risco e de proteção existem;
  • que recursos podem ajudar a pessoa a lidar com o sofrimento de forma mais segura.

A intervenção não deve centrar-se apenas em “fazer a autolesão desaparecer”.

É necessário ajudar a pessoa a construir outras formas de lidar com emoções intensas, estabelecer relações de apoio, reconhecer sinais de alerta e pedir ajuda antes de chegar ao limite.

E, quando existe risco de suicídio ou perigo imediato, é necessária uma avaliação urgente e adequada ao nível de risco.

Por detrás do comportamento existe uma pessoa

Talvez esta seja a ideia mais importante.

Quando vemos alguém a magoar-se, é fácil ficarmos presos ao comportamento.

Queremos que pare.

Queremos perceber porquê.

Queremos encontrar rapidamente uma explicação.

Mas, por detrás da autolesão, existe uma pessoa que pode estar a tentar lidar com algo que, naquele momento, parece impossível de suportar.

Compreender o comportamento não significa aceitá-lo como solução.

Significa tentar perceber o sofrimento que está por detrás dele para que possam ser encontradas alternativas mais seguras.

Não precisamos de compreender tudo para levar o sofrimento a sério.

Às vezes, o primeiro passo para ajudar alguém não é perguntar:

“Porque é que fizeste isso?”

É dizer:

“Quero perceber o que está a acontecer contigo.”


Se está preocupado com alguém

Se suspeita que um filho, adolescente, familiar ou outra pessoa próxima está a envolver-se em comportamentos autolesivos, procure ajuda profissional.

Não é necessário esperar que a situação se agrave para pedir apoio.

A autolesão merece ser encarada com seriedade, mas também sem julgamento.

Pedir ajuda é, muitas vezes, o primeiro passo para encontrar outras formas de lidar com o sofrimento.

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Dra. Margarida Martins