Quando alguém se magoa de propósito, uma das primeiras reações de quem está à sua volta pode ser de incompreensão.
“Porque é que alguém que está a sofrer haveria de se magoar ainda mais?”
Ou, talvez ainda mais comum:
“Está só a querer chamar a atenção.”
Mas a autolesão é muito mais complexa do que isso.
Os comportamentos autolesivos podem ser uma manifestação de sofrimento psicológico e surgir quando uma pessoa sente emoções, pensamentos ou estados internos que, naquele momento, não consegue compreender, expressar ou suportar de outra forma.
Compreender a autolesão não significa considerar este comportamento uma solução adequada. Significa tentar perceber o que está por detrás dele, para que seja possível encontrar formas mais seguras de lidar com o sofrimento.
O que é a autolesão?
A autolesão, também designada por comportamento autolesivo ou automutilação em alguns contextos, refere-se a comportamentos em que uma pessoa provoca intencionalmente algum tipo de dano ao próprio corpo.
Embora seja frequentemente associada aos adolescentes, a autolesão pode acontecer em diferentes idades e em contextos muito diversos.
É importante também fazer uma distinção: autolesão e tentativa de suicídio não são a mesma coisa.
Uma pessoa pode envolver-se em comportamentos autolesivos sem ter intenção de morrer. No entanto, isso não significa que a situação deva ser desvalorizada. A presença de autolesão deve ser levada a sério e merece uma avaliação cuidadosa do sofrimento psicológico, dos riscos associados e das necessidades da pessoa.
Porque é que alguém se magoa de propósito?
Não existe uma única razão.
Cada pessoa tem a sua história, as suas experiências e a sua forma de lidar com aquilo que sente. Por isso, compreender um comportamento autolesivo implica olhar para aquilo que está a acontecer antes, durante e depois do comportamento.
A autolesão pode surgir associada, por exemplo, a:
- emoções muito intensas que parecem impossíveis de controlar;
- raiva ou angústia que não encontram outra forma de expressão;
- sentimentos de vazio ou desconexão;
- dificuldade em identificar aquilo que se está a sentir;
- dificuldade em comunicar emoções ou pedir ajuda;
- pensamentos persistentes e difíceis de interromper;
- sensação de perda de controlo;
- necessidade de interromper, ainda que temporariamente, um estado emocional muito intenso;
- necessidade de recuperar uma sensação de controlo sobre alguma coisa.
Por vezes, a pessoa pode nem conseguir explicar claramente porque o fez.
E isso também é importante.
Nem sempre conseguimos transformar imediatamente o sofrimento em palavras.
A autolesão é uma forma de chamar a atenção?
Não devemos partir desse princípio.
Dizer que alguém se magoa apenas para “chamar a atenção” simplifica um comportamento que pode estar associado a um sofrimento emocional significativo.
Para algumas pessoas, a autolesão pode funcionar como uma tentativa de:
→ aliviar temporariamente uma emoção muito intensa;
→ interromper um estado de grande tensão;
→ lidar com sentimentos difíceis de nomear;
→ sentir alguma coisa quando existe uma sensação de vazio ou desconexão;
→ recuperar uma sensação de controlo;
→ comunicar um sofrimento que não está a conseguir ser expresso através de palavras.
Mesmo quando existe uma dimensão de comunicação do sofrimento, isso não torna a dor menos real.
Pedir ajuda nem sempre começa por dizer:
“Preciso de ajuda.”
Às vezes, começa por um comportamento que nos mostra que alguma coisa não está bem.
Por isso, chamar “manipulação” a um comportamento autolesivo pode afastar precisamente a pessoa que mais precisa de apoio.
O alívio depois da autolesão não significa que o problema desapareceu
Uma das razões pelas quais os comportamentos autolesivos podem tornar-se difíceis de interromper é o alívio que algumas pessoas sentem depois do comportamento.
Pode formar-se um ciclo:
sofrimento intenso → aumento da tensão → impulso para se magoar → comportamento autolesivo → alívio momentâneo → regresso do sofrimento.
O alívio pode ser real.
Mas é temporário.
E é precisamente porque o comportamento pode proporcionar uma redução imediata do sofrimento que pode acabar por se tornar uma estratégia repetida para lidar com emoções difíceis.
Isto ajuda-nos a compreender uma coisa importante:
a pessoa não está necessariamente a procurar a dor. Pode estar a tentar escapar àquilo que sente.
O que acontece antes da autolesão?
Quando se pretende compreender um comportamento autolesivo, não basta perguntar:
“Como fazemos para que isto pare?”
É igualmente importante perguntar:
“O que acontece antes?”
“O que é que esta pessoa está a sentir?”
“O que estava a pensar naquele momento?”
“O que aconteceu nesse dia ou nessas horas?”
“O que é que o comportamento parece proporcionar?”
E, sobretudo:
“Que outras formas podemos construir para lidar com esse sofrimento?”
Esta mudança de perspetiva é fundamental.
Porque retirar apenas o comportamento, sem compreender a função que ele está a desempenhar, pode deixar a pessoa sem outra estratégia para lidar com aquilo que sente.
Como devemos reagir quando alguém se magoa?
Quando descobrimos que alguém se está a magoar, especialmente quando se trata de um adolescente, é natural sentir medo, preocupação ou até raiva.
Mas a primeira resposta pode fazer uma grande diferença.
Frases como:
- “Estás a fazer isso para chamar a atenção.”
- “Se voltares a fazer isso, vais ter consequências.”
- “Tens de parar imediatamente.”
- “Não tens motivos para fazer isso.”
- “Isso é uma parvoíce.”
podem aumentar a vergonha e dificultar que a pessoa fale sobre aquilo que está a acontecer.
Sempre que possível, é preferível procurar uma resposta baseada em segurança, escuta e disponibilidade para ajudar.
Não é necessário compreender tudo naquele momento.
Podemos começar simplesmente por transmitir:
“Eu percebo que estás a passar por alguma coisa difícil. Não tens de explicar tudo agora, mas quero ajudar-te.”
Quando procurar ajuda psicológica?
A autolesão é um sinal de que existe algo que merece atenção.
A avaliação psicológica pode ajudar a compreender:
- quais são os acontecimentos que desencadeiam o comportamento;
- que emoções e pensamentos estão associados;
- que função a autolesão está a cumprir;
- que estratégias de regulação emocional estão disponíveis;
- que fatores de risco e de proteção existem;
- que recursos podem ajudar a pessoa a lidar com o sofrimento de forma mais segura.
A intervenção não deve centrar-se apenas em “fazer a autolesão desaparecer”.
É necessário ajudar a pessoa a construir outras formas de lidar com emoções intensas, estabelecer relações de apoio, reconhecer sinais de alerta e pedir ajuda antes de chegar ao limite.
E, quando existe risco de suicídio ou perigo imediato, é necessária uma avaliação urgente e adequada ao nível de risco.
Por detrás do comportamento existe uma pessoa
Talvez esta seja a ideia mais importante.
Quando vemos alguém a magoar-se, é fácil ficarmos presos ao comportamento.
Queremos que pare.
Queremos perceber porquê.
Queremos encontrar rapidamente uma explicação.
Mas, por detrás da autolesão, existe uma pessoa que pode estar a tentar lidar com algo que, naquele momento, parece impossível de suportar.
Compreender o comportamento não significa aceitá-lo como solução.
Significa tentar perceber o sofrimento que está por detrás dele para que possam ser encontradas alternativas mais seguras.
Não precisamos de compreender tudo para levar o sofrimento a sério.
Às vezes, o primeiro passo para ajudar alguém não é perguntar:
“Porque é que fizeste isso?”
É dizer:
“Quero perceber o que está a acontecer contigo.”
Se está preocupado com alguém
Se suspeita que um filho, adolescente, familiar ou outra pessoa próxima está a envolver-se em comportamentos autolesivos, procure ajuda profissional.
Não é necessário esperar que a situação se agrave para pedir apoio.
A autolesão merece ser encarada com seriedade, mas também sem julgamento.
Pedir ajuda é, muitas vezes, o primeiro passo para encontrar outras formas de lidar com o sofrimento.
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