Quando um adolescente está a passar por sofrimento psicológico, nem sempre aquilo que influencia o seu estado emocional acontece fora de casa.
Também pode acontecer no ecrã.
As redes sociais fazem parte da vida quotidiana de muitos adolescentes. São espaços onde conversam, procuram informação, acompanham outras pessoas, descobrem conteúdos e constroem relações.
Mas, para alguém que já está emocionalmente fragilizado, aquilo que encontra online pode começar a ter um peso diferente.
Um vídeo leva a outro.
Uma pesquisa conduz a outra.
Um conteúdo desperta curiosidade.
E, pouco a pouco, o algoritmo começa a mostrar cada vez mais conteúdos relacionados com aquilo que a pessoa procura ou com os quais interage.
É aqui que importa falar sobre autolesão e redes sociais.
As redes sociais podem influenciar aquilo em que pensamos?
Os conteúdos que vemos repetidamente podem ocupar cada vez mais espaço na nossa atenção.
Isto pode acontecer com qualquer tema.
Quando pesquisamos sobre determinado assunto, começamos frequentemente a encontrar mais informação sobre esse assunto. Quando interagimos com determinados conteúdos, podemos voltar a encontrá-los.
Para um adolescente que está a viver sofrimento emocional, este processo pode significar uma exposição repetida a conteúdos relacionados com dor psicológica, autolesão, desesperança ou outras experiências difíceis.
Isto não significa que as redes sociais sejam a causa da autolesão.
O sofrimento pode existir muito antes de o adolescente encontrar esses conteúdos.
Mas aquilo que encontra online pode, em algumas situações, reforçar aquilo que já está a acontecer emocionalmente.
Quando encontrar outras pessoas pode ajudar — e quando pode não ajudar
Uma das razões pelas quais os adolescentes procuram conteúdos relacionados com sofrimento pode ser a necessidade de perceber que não são os únicos a passar por aquilo.
Encontrar alguém que descreve uma experiência semelhante pode produzir uma sensação de reconhecimento:
“Alguém percebe aquilo que eu sinto.”
“Não sou o único.”
Essa sensação de identificação pode ser importante.
O problema surge quando a procura de compreensão começa a transformar-se numa exposição constante ao sofrimento.
Em vez de ajudar a pessoa a afastar-se do que está a sentir, o conteúdo pode mantê-la continuamente ligada ao mesmo tema.
A questão, por isso, não é simplesmente perguntar:
“As redes sociais fazem mal?”
É perguntar:
“O que é que estas redes estão a fazer a esta pessoa?”
Quando o conteúdo passa a alimentar o sofrimento
A exposição repetida a conteúdos relacionados com autolesão pode, em determinadas circunstâncias, contribuir para:
- normalizar determinados comportamentos;
- aumentar a identificação com pessoas que também se magoam;
- manter a atenção constantemente centrada na autolesão;
- reforçar uma sensação de pertença construída em torno do sofrimento;
- tornar mais difícil afastar-se de conteúdos perturbadores;
- criar a perceção de que determinados comportamentos são mais comuns ou inevitáveis do que realmente são.
Isto não acontece da mesma forma com todas as pessoas.
E é importante não transformar uma relação complexa numa explicação simples.
Ver conteúdos sobre autolesão não significa que um adolescente vá começar a magoar-se.
Mas, quando já existe sofrimento psicológico, vale a pena perceber se aquilo que está a acontecer online está a ajudar, a ser neutro ou a piorar a situação.
O que acontece depois de estar nas redes sociais?
Esta pode ser uma pergunta muito mais importante do que simplesmente saber quantas horas um adolescente passa no telemóvel.
Porque duas pessoas podem passar o mesmo tempo online e ter experiências completamente diferentes.
Por isso, podemos perguntar:
“Como te sentes depois de estar nas redes sociais?”
“Há conteúdos que te deixam pior?”
“Ficas mais triste, ansioso ou irritado depois de veres determinadas coisas?”
“Sentes vontade de continuar a procurar conteúdos sobre esse tema?”
“Há alguma coisa que apareça repetidamente no teu feed?”
Estas perguntas não servem para interrogar.
Servem para ajudar o adolescente a perceber a relação entre aquilo que vê e aquilo que sente.
Essa consciência pode ser um primeiro passo para começar a fazer escolhas diferentes no ambiente digital.
Nem todo o conteúdo sobre saúde mental é prejudicial
Também é importante evitar o extremo oposto.
Falar de saúde mental nas redes sociais não é, por si só, negativo.
Existem conteúdos que podem ajudar um adolescente a:
- reconhecer aquilo que está a sentir;
- perceber que pedir ajuda é possível;
- encontrar informação adequada;
- descobrir estratégias de regulação emocional;
- sentir-se menos sozinho;
- procurar apoio de um adulto ou profissional.
Por isso, não se trata de dizer:
“Não vejas conteúdos sobre saúde mental.”
Trata-se de ajudar a distinguir conteúdos que promovem compreensão e procura de ajuda daqueles que podem manter a pessoa presa ao sofrimento.
O papel dos adultos não é apenas controlar o telemóvel
Quando os pais descobrem que o filho está a ver conteúdos relacionados com autolesão, a reação pode ser imediata:
“Vou tirar-te o telemóvel.”
É uma reação compreensível.
O medo pode levar-nos a querer retirar imediatamente aquilo que identificamos como perigoso.
Mas, quando possível, é importante tentar perceber primeiro o que está a acontecer.
O adolescente está apenas a encontrar estes conteúdos?
Está a procurá-los deliberadamente?
Sente que não consegue parar de os procurar?
Está a falar com outras pessoas sobre autolesão?
Está a participar em comunidades online centradas nesse tema?
Sente-se pior depois dessas interações?
As respostas podem ser muito diferentes — e exigem respostas diferentes.
Vigiar não é o mesmo que acompanhar
A preocupação com a segurança de um filho pode levar os pais a querer controlar tudo aquilo que ele faz online.
Mas acompanhar um adolescente não significa necessariamente vigiar cada pesquisa, cada mensagem ou cada publicação.
Também pode significar criar uma relação em que seja possível falar sobre aquilo que acontece online.
Uma conversa pode começar simplesmente por:
“Tenho reparado que tens visto alguns conteúdos que me preocupam. Não quero começar por tirar-te o telemóvel. Quero perceber o que estás a encontrar e como te estás a sentir.”
Esta abordagem não significa ausência de limites.
Significa que os limites são acompanhados por comunicação.
E, quando existe risco, naturalmente, a proteção e a segurança têm de ser prioritárias.
E se o adolescente não quiser falar?
Nem sempre vai responder.
Pode dizer:
“Não é nada.”
“Deixa-me em paz.”
“Toda a gente vê isso.”
“Não quero falar.”
Isso não significa necessariamente que a conversa tenha falhado.
Por vezes, um adolescente precisa de tempo para perceber que pode falar sem ser imediatamente julgado ou castigado.
Podemos deixar uma porta aberta:
“Está bem. Não precisas de falar agora. Mas quero que saibas que, quando quiseres, podemos falar sobre isto.”
E depois voltar ao assunto.
Sem transformar cada conversa numa investigação.
Quando existe autolesão, é importante olhar para o contexto
Se já existe comportamento autolesivo, o ambiente digital deve ser considerado como parte do contexto, mas não como uma explicação única.
É importante perceber o que está a acontecer na vida do adolescente:
Como estão as relações familiares?
Como está a escola?
Existem situações de bullying ou cyberbullying?
Existe isolamento?
Existem conflitos ou experiências de rejeição?
Como está a autoestima?
Que emoções parecem mais difíceis de gerir?
Que estratégias utiliza quando está em sofrimento?
E que apoio tem disponível?
O bullying, por exemplo, também pode acontecer no ambiente digital e ter impacto significativo no bem-estar psicológico. Pode ler mais sobre este tema no artigo [Bullying: compreender para prevenir e transformar]. Bullying: compreender para prevenir e transformar
Também pode ser útil pensar sobre a forma como o comportamento comunica sofrimento. No artigo [Quando o comportamento da criança é um pedido de ajuda], exploro precisamente a ideia de que aquilo que uma criança ou jovem faz pode, por vezes, comunicar aquilo que ainda não consegue dizer por palavras. Quando o comportamento da criança é um pedido de ajuda
A autolesão não começa no telemóvel
Esta é uma distinção importante.
Quando descobrimos que um adolescente se está a magoar e percebemos que também consome conteúdos relacionados com autolesão, pode ser tentador concluir:
“Foi por causa das redes sociais.”
Mas essa conclusão pode ser demasiado simples.
As redes sociais podem fazer parte do problema.
Podem também ser um lugar onde o sofrimento se manifesta.
Mas raramente devemos olhar para elas isoladamente.
O adolescente existe dentro de uma rede de relações, experiências, emoções e circunstâncias.
O que acontece online pode ser uma peça desse puzzle.
Não é necessariamente o puzzle inteiro.
O que podemos fazer?
Em vez de perguntar apenas:
“Quanto tempo passas no telemóvel?”
podemos começar a perguntar:
“O que encontras quando estás online?”
“Como te sentes depois?”
“Há alguma coisa que te esteja a fazer pior?”
“Há alguma coisa que te esteja a ajudar?”
E, sobretudo:
“O que posso fazer para te ajudar?”
Estas perguntas podem abrir uma conversa muito diferente.
Uma conversa menos centrada no controlo.
E mais centrada na compreensão.
Quando procurar ajuda psicológica
Se existe autolesão, sofrimento emocional intenso ou preocupação com a segurança do adolescente, não é necessário esperar para ver se a situação melhora sozinha.
O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender o sofrimento, os fatores que o mantêm e as estratégias que podem ser construídas para lidar com ele de forma mais segura.
As redes sociais podem ser abordadas nesse processo, mas dentro de uma compreensão mais ampla da vida do adolescente.
Porque o objetivo não é apenas afastá-lo de determinados conteúdos.
É ajudá-lo a construir recursos para que, quando encontrar algo que o faça sentir pior, consiga reconhecer o impacto que isso tem em si e procurar outras formas de lidar com aquilo que sente.
Não precisamos de retirar o adolescente do mundo digital para o proteger
As redes sociais fazem parte da realidade dos adolescentes.
Por isso, a resposta dificilmente estará apenas em retirar o telemóvel.
Precisamos também de ensinar a olhar para aquilo que aparece no ecrã.
A reconhecer o que faz bem.
A identificar o que faz pior.
A questionar aquilo que vemos.
A afastarmo-nos de determinados conteúdos quando necessário.
E, sobretudo, a perceber quando aquilo que estamos a viver já não deve ser enfrentado sozinho.
Porque, quando o sofrimento começa a aparecer também no ecrã, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Como faço para ele deixar de ver isto?”
Mas:
“O que está este adolescente a tentar encontrar aqui?”
E talvez seja precisamente essa pergunta que nos permita começar a perceber o que está por detrás do ecrã.