Dra. Margarida Martins

Amar também é colocar limites: firmeza, segurança e o papel da frustração no desenvolvimento infantil

Na parentalidade, existe muitas vezes um dilema silencioso:
como equilibrar o afeto com a autoridade?

Entre acolher e orientar, compreender e limitar, muitos pais sentem-se divididos, como se tivessem de escolher entre ser carinhosos ou firmes.

Mas, na realidade, o desenvolvimento saudável da criança exige precisamente amor com limites.

A falsa ideia de que amar é evitar o desconforto

É natural querer proteger as crianças de emoções difíceis.

Evitar que chorem, que se frustrem, que fiquem zangadas.

No entanto, ao fazê-lo de forma sistemática, corremos o risco de impedir uma aprendizagem essencial:
a capacidade de lidar com a frustração.

Acolher a emoção, manter o limite

Uma das tarefas mais exigentes da parentalidade é conseguir estar presente na emoção da criança, sem abdicar da estrutura.

Vejamos um exemplo simples do quotidiano:

Está na hora do banho.
A criança quer continuar a brincar.

Perante isto, é expectável que surja frustração: choro, oposição, birra.

O papel do adulto não é eliminar essa emoção, mas sim contê-la com presença e firmeza.

Por exemplo:
“Eu sei que querias continuar a brincar. Estavas a divertir-te.”
“É difícil parar.”

Aqui há validação.

Mas o limite mantém-se:
“Agora é hora do banho.”

Porque não devemos ceder sistematicamente

Quando o adulto cede sempre perante a birra, a criança aprende que:

  • o limite é negociável
  • a intensidade emocional altera as regras
  • não precisa de desenvolver estratégias de autorregulação

Além disso, a inconsistência gera insegurança.

Paradoxalmente, é a firmeza que transmite previsibilidade, e, com ela, segurança.

A importância da frustração

A frustração não é um problema a evitar, é uma competência a desenvolver.

Ao viver estas pequenas experiências do dia-a-dia, a criança aprende:

  • que nem sempre pode fazer o que quer
  • que consegue tolerar o desconforto
  • que as emoções passam
  • que há regras que organizam o mundo

Estas são aprendizagens fundamentais para a vida adulta.

Firmeza com relação

Importa sublinhar: firmeza não é rigidez, nem ausência de afeto.

É uma firmeza com presença.

É estar ao lado da criança enquanto ela chora — sem abandonar o limite.

É transmitir:
“Eu compreendo o que sentes.”
“E continuo aqui.”
“E o limite mantém-se.”

Educar é sustentar o desconforto com amor

Talvez uma das tarefas mais difíceis para um adulto seja tolerar o choro de uma criança sem ceder imediatamente.

Mas é precisamente nesse espaço, entre a emoção e o limite, que acontece o desenvolvimento.

Amar uma criança não é evitar todas as suas lágrimas.

É ajudá-la a crescer com recursos para lidar com elas.

Dra. Margarida Martins