Dra. Margarida Martins

Como os estilos de vinculação influenciam a relação com os filhos

A forma como fomos amados durante a infância deixa marcas profundas na maneira como nos relacionamos com os outros. Influencia as amizades, as relações amorosas e, muitas vezes, também a forma como educamos os nossos filhos.

Os estilos de vinculação são um dos conceitos mais estudados na Psicologia do Desenvolvimento e ajudam-nos a compreender porque algumas pessoas conseguem oferecer segurança emocional com maior facilidade, enquanto outras sentem mais dificuldade em lidar com determinadas emoções, comportamentos ou diferenças.

Mas há uma boa notícia: os estilos de vinculação não determinam o futuro. Podem ser compreendidos, trabalhados e transformados.

O que são os estilos de vinculação?

A teoria da vinculação, desenvolvida por John Bowlby e aprofundada por Mary Ainsworth, explica que a relação estabelecida com as principais figuras cuidadoras durante a infância influencia a forma como aprendemos a confiar, pedir ajuda, lidar com as emoções e construir relações ao longo da vida.

Quando uma criança cresce num ambiente previsível, onde se sente protegida, compreendida e aceite, tende a desenvolver uma vinculação segura.

Quando, pelo contrário, o amor parece depender do comportamento, do desempenho ou da obediência, podem desenvolver-se padrões de insegurança que acompanham a pessoa até à idade adulta.

Como a vinculação influencia a parentalidade?

Muitas vezes, educamos sem nos apercebermos de que estamos a repetir aquilo que vivemos.

Se crescemos a acreditar que era preciso corresponder às expectativas dos outros para sermos amados, é natural que, enquanto adultos, sintamos desconforto quando um filho manifesta características, interesses ou formas de estar diferentes daquelas que imaginávamos.

Não significa falta de amor.

Significa apenas que, por vezes, carregamos modelos de relação que nunca tivemos oportunidade de questionar.

Sem intenção, podemos transmitir mensagens subtis como:

  • “Gostava mais que fosses diferente.”
  • “Era mais fácil compreender-te se fosses como eu esperava.”
  • “Assim custa-me aceitar-te.”

Estas mensagens raramente são ditas de forma direta. Muitas vezes surgem através de críticas constantes, comparações, tentativas de controlo ou dificuldade em validar emoções.

Aceitar não é concordar com tudo

Existe uma ideia errada de que aceitar um filho significa permitir qualquer comportamento.

Não é isso que a Psicologia nos mostra.

Uma vinculação segura não implica ausência de regras, limites ou orientação.

Significa que a criança sente que continua a ser amada mesmo quando erra, quando pensa de forma diferente ou quando está a descobrir quem é.

Os limites podem coexistir com o respeito, a escuta e a aceitação.

Aliás, é precisamente dentro de uma relação segura que a criança aprende a autorregular-se, desenvolver autonomia e construir uma autoestima saudável.

A importância de sentir que se pode ser autêntico

Todas as crianças precisam de sentir que podem mostrar quem realmente são sem receio de perder o amor das pessoas que mais importam.

Quando uma criança cresce a esconder emoções, interesses ou aspetos importantes da sua identidade por medo da rejeição, aprende que algumas partes de si não são dignas de aceitação.

Esse esforço contínuo para corresponder às expectativas dos outros pode aumentar o risco de ansiedade, baixa autoestima, dificuldades relacionais e sofrimento emocional ao longo da vida.

Pelo contrário, quando sente que é aceite, compreendida e respeitada, desenvolve maior confiança em si própria e maior capacidade para enfrentar os desafios da vida.

É possível construir uma vinculação mais segura

Nenhum pai, mãe ou cuidador é perfeito.

Todos cometemos erros.

O que faz a diferença não é nunca falhar, mas estar disponível para reparar, ouvir, pedir desculpa quando necessário e continuar a fortalecer a relação.

A vinculação constrói-se nas pequenas interações do dia a dia:

  • escutar antes de julgar;
  • validar emoções;
  • demonstrar afeto;
  • estabelecer limites com respeito;
  • interessar-se genuinamente pelo mundo da criança;
  • transmitir, através das palavras e das atitudes, que o amor não depende de corresponder a expectativas.

Uma pergunta que merece reflexão

Talvez a questão mais importante não seja:

“Quem gostaria que o meu filho fosse?”

Mas sim:

“Será que o meu filho sente que pode ser verdadeiramente ele próprio comigo?”

Porque a parentalidade não consiste em criar filhos perfeitos.

Consiste em criar relações suficientemente seguras para que cada criança possa crescer, descobrir quem é e saber que continuará a ser amada ao longo desse caminho.

Quando procurar apoio psicológico?

Por vezes, determinados padrões familiares repetem-se sem que nos apercebamos deles. A terapia psicológica pode ajudar a compreender como as experiências da infância influenciam a parentalidade, permitindo desenvolver formas de relação mais seguras, conscientes e emocionalmente disponíveis.

Nunca é demasiado tarde para construir uma relação mais saudável consigo próprio e com os seus filhos.

Dra. Margarida Martins