Dra. Margarida Martins

“Não quero ir para a escola”: quando devemos preocupar-nos?

Depois das férias, é frequente ouvir uma frase que deixa muitos pais preocupados:

“Não quero ir para a escola.”

Depois de semanas com horários mais flexíveis, mais tempo em família e menos obrigações, voltar à rotina escolar pode ser difícil.

Algumas crianças precisam simplesmente de alguns dias para se readaptarem.

Outras, porém, podem estar a comunicar algo mais.

Porque, por vezes, “não quero ir para a escola” não significa apenas “não me apetece voltar”.

Pode significar:

“Estou com medo.”

“Não sei se vou conseguir.”

“Tenho medo de falhar.”

“Não me sinto integrado.”

“Há alguma coisa na escola que me está a fazer sofrer.”

E perceber esta diferença é importante.

É normal uma criança não querer voltar à escola?

Sim.

O regresso à escola implica uma mudança de rotina que pode provocar alguma resistência, irritabilidade ou ansiedade.

Depois de um período de férias, a criança precisa de voltar a adaptar-se a horários, regras, responsabilidades, trabalhos escolares e separações dos pais.

Para algumas crianças, esta adaptação acontece rapidamente.

Para outras, pode demorar mais tempo.

Por isso, nem toda a resistência ao regresso à escola é motivo de preocupação.

A questão está em perceber a intensidade, a duração e o impacto desse sofrimento no dia a dia da criança.

Quando o regresso à escola traz uma mudança maior

Nem todas as crianças estão simplesmente a regressar à mesma escola.

Algumas estão a iniciar uma etapa completamente nova.

A passagem do 1.º para o 2.º ciclo, por exemplo, pode representar uma mudança significativa.

De repente, a criança pode encontrar:

  • uma escola maior;
  • mais salas e espaços desconhecidos;
  • vários professores;
  • novas disciplinas;
  • mais materiais;
  • horários diferentes;
  • maior autonomia e responsabilidade;
  • novos colegas;
  • novas exigências académicas.

Para um adulto, estas mudanças podem parecer perfeitamente geríveis.

Para uma criança, podem representar um mundo novo que ainda precisa de aprender a conhecer.

E o desconhecido pode gerar ansiedade.

“E se eu não conseguir?”

A ansiedade perante o regresso à escola pode aparecer através de muitas perguntas:

“E se me perder?”

“E se não conseguir acompanhar?”

“E se o professor for muito exigente?”

“E se não fizer amigos?”

“E se os outros gozarem comigo?”

“E se tiver más notas?”

Nem sempre a criança consegue dizer claramente:

“Estou ansiosa com o regresso à escola.”

Às vezes, o sofrimento aparece através do corpo ou do comportamento.

Pode surgir como dificuldade em dormir, irritabilidade, choro, dores de barriga ou de cabeça, resistência em preparar-se de manhã ou uma vontade cada vez maior de ficar em casa.

Quando devemos prestar mais atenção?

Vale a pena observar com maior cuidado quando a criança:

  • apresenta dores de barriga ou de cabeça frequentes, sobretudo antes de ir para a escola;
  • chora ou fica muito angustiada perante a ideia de ir;
  • apresenta alterações significativas no sono;
  • apresenta alterações no apetite;
  • pede repetidamente para ficar em casa;
  • demonstra medo persistente relacionado com a escola;
  • muda significativamente o seu comportamento;
  • começa a isolar-se dos colegas;
  • deixa de participar em atividades de que anteriormente gostava;
  • apresenta uma quebra significativa no rendimento escolar;
  • demonstra preocupação excessiva com notas, professores ou colegas;
  • revela medo de uma determinada pessoa ou situação na escola.

Nenhum destes sinais significa, por si só, que exista um problema psicológico.

Mas quando são persistentes, intensos ou interferem com a vida familiar, escolar ou social, merecem ser escutados.

Como explico no artigo [“Quando o comportamento da criança é um pedido de ajuda”], o comportamento infantil pode ser uma forma de comunicar emoções e experiências que a criança ainda não consegue colocar em palavras.

O que pode estar por detrás do “não quero ir”?

A mesma frase pode esconder experiências muito diferentes.

Pode ser apenas dificuldade em retomar a rotina.

Mas também pode existir:

  • ansiedade escolar;
  • medo de falhar;
  • dificuldades de aprendizagem;
  • pressão relacionada com o desempenho;
  • dificuldades de relacionamento com colegas;
  • exclusão social;
  • bullying;
  • medo de um professor;
  • baixa autoestima;
  • dificuldades de adaptação a uma mudança de ciclo;
  • preocupação com a separação dos pais;
  • outras experiências que a criança ainda não consegue explicar.

É por isso que, perante uma recusa persistente, pode ser mais útil perguntar:

“O que é que te custa mais quando pensas em voltar para a escola?”

em vez de responder imediatamente:

“Tens de ir. Toda a gente vai.”

Às vezes, uma frase aparentemente simples esconde uma preocupação que precisa de ser ouvida.

E quando existe bullying?

Uma criança que está a sofrer bullying pode não dizer diretamente:

“Estão a fazer bullying comigo.”

Pode começar simplesmente por não querer ir para a escola.

Pode apresentar dores de barriga, alterações no sono, irritabilidade, tristeza, isolamento ou uma quebra no rendimento escolar.

Por isso, quando uma criança demonstra uma mudança significativa em relação à escola, é importante tentar perceber o que está a acontecer naquele contexto.

No artigo [“Bullying: compreender para prevenir e transformar”], explico com maior detalhe o que caracteriza o bullying, os sinais que podem surgir e a importância da intervenção.

A ansiedade dos pais também pode entrar na mochila

O regresso à escola não traz preocupações apenas para as crianças.

Os pais também podem pensar:

“Será que se vai adaptar?”

“E se tiver dificuldades?”

“E se não fizer amigos?”

“Será que está preparado?”

Estas preocupações são naturais.

Mas as crianças também percebem aquilo que os adultos transmitem, mesmo quando não o dizem diretamente.

Existe uma diferença entre preparar uma criança para uma dificuldade e transmitir-lhe a ideia de que provavelmente não vai conseguir lidar com ela.

Não precisamos de dizer:

“Não tens nada com que te preocupar.”

Podemos dizer:

“É normal sentires alguma ansiedade quando vais começar uma coisa nova.”

“No início pode ser estranho e depois tornar-se mais fácil.”

“Se aparecer alguma dificuldade, podemos pensar juntos no que fazer.”

“Não tens de resolver tudo sozinho.”

A mensagem não é:

“Nada vai correr mal.”

Porque não sabemos isso.

A mensagem é:

“Acredito que vais conseguir lidar com aquilo que aparecer. E, quando for difícil, estaremos aqui.”

Como podemos ajudar uma criança ansiosa com o regresso à escola?

Uma das melhores formas de reduzir a ansiedade perante o desconhecido é torná-lo mais previsível.

Quando existe uma mudança de escola ou de ciclo, pode ser útil:

  • conhecer antecipadamente a escola;
  • perceber onde ficam as salas;
  • conhecer os espaços mais importantes;
  • preparar o material escolar em conjunto;
  • falar sobre como será um dia normal;
  • organizar antecipadamente horários e rotinas;
  • esclarecer dúvidas que a criança tenha;
  • pensar em estratégias para situações que a preocupam.

Por exemplo, se a criança diz:

“E se eu me perder?”

podemos ajudá-la a pensar:

“Se isso acontecer, a quem podes pedir ajuda?”

Se diz:

“E se não fizer amigos?”

podemos conversar sobre formas de iniciar uma conversa ou aproximar-se de alguém.

O objetivo não é garantir que nada difícil acontecerá.

É ajudar a criança a perceber:

“Mesmo que alguma coisa não corra como eu espero, posso pedir ajuda e encontrar uma forma de lidar com isso.”

Não precisamos de eliminar toda a ansiedade

A ansiedade não é necessariamente um problema.

Uma pequena quantidade de ansiedade pode acompanhar mudanças importantes e até ajudar-nos a preparar para aquilo que vai acontecer.

O objetivo não deve ser ensinar a criança a nunca sentir medo.

É ajudá-la a desenvolver recursos para lidar com aquilo que sente.

Porque crescer também significa entrar em lugares novos, conhecer pessoas novas, enfrentar desafios e descobrir que somos capazes de fazer coisas que inicialmente pareciam assustadoras.

Escutar antes de tentar resolver

Quando uma criança diz:

“Não quero ir para a escola.”

a primeira reação do adulto pode ser tentar convencê-la imediatamente.

“Vais gostar.”

“Não tens motivos para estar assim.”

“Todos têm de ir.”

“Não penses nisso.”

Mas talvez a primeira pergunta possa ser outra:

“Queres contar-me o que te está a preocupar?”

Ou simplesmente:

“O que é que te custa mais quando pensas na escola?”

Escutar não significa concordar com tudo.

Também não significa retirar limites ou permitir que a criança deixe de ir à escola sempre que sente ansiedade.

Significa tentar compreender o que está por detrás da resistência, para que a resposta seja adequada àquilo que realmente está a acontecer.

Quando procurar ajuda psicológica?

Se a ansiedade ou a recusa escolar persistirem, forem muito intensas ou começarem a interferir significativamente com a vida da criança, pode ser importante procurar ajuda profissional.

Um psicólogo pode ajudar a compreender:

  • o que está a desencadear a ansiedade;
  • como a criança interpreta as situações escolares;
  • se existem dificuldades emocionais, sociais ou de aprendizagem;
  • se existe alguma situação de bullying ou exclusão;
  • quais os recursos que a criança já possui;
  • que estratégias podem ajudá-la a enfrentar a situação.

A intervenção não deve centrar-se apenas em fazer com que a criança volte à escola.

É importante compreender porque é que ir à escola se tornou tão difícil.

Porque obrigar uma criança a enfrentar uma situação sem compreender aquilo que está a causar o sofrimento pode não resolver o problema.

Nem todo o “não quero ir” é um sinal de alarme

Há crianças que não querem voltar à escola porque preferiam continuar de férias.

Há crianças que precisam de alguns dias para recuperar a rotina.

E há crianças que estão a tentar dizer, através de uma frase simples, que alguma coisa não está bem.

Cabe aos adultos tentar perceber a diferença.

Nem toda a resistência é um sinal de alarme.

Mas todo o sofrimento merece ser ouvido.

Por vezes, a pergunta mais importante não é:

“Como faço para o meu filho querer ir para a escola?”

É:

“O que estará a tornar tão difícil para o meu filho querer ir?”

E talvez seja precisamente essa pergunta que permita começar a ajudá-lo.

Artigos relacionados

Se este tema lhe interessa, poderá também ler:

  • [Quando o comportamento da criança é um pedido de ajuda]
  • [Bullying: compreender para prevenir e transformar]

Porque, por vezes, aquilo que parece apenas uma recusa, uma birra ou uma mudança de comportamento pode ser a forma que uma criança encontrou para dizer:

“Alguma coisa está a ser difícil para mim.”

E, quando uma criança ainda não consegue explicar o que está a acontecer, cabe-nos estar disponíveis para escutar.

Dra. Margarida Martins