Durante muitos anos, a minha vida seguiu um caminho estável.
Trabalhei durante 23 anos numa IPSS, numa função administrativa, com rotinas bem definidas
e uma sensação de segurança que, à partida, deveria ser suficiente.
E, durante muito tempo, foi.
Mas havia uma inquietação difícil de ignorar.
Uma sensação de não estar totalmente alinhada comigo própria.
Como acontece com tantas pessoas, fui adiando essa escuta interna.
Porque mudar dá medo.
Medo de falhar.
Medo de perder estabilidade.
Medo de não ser capaz.
Ainda assim, aos 48 anos, tomei uma decisão que mudou a minha vida: voltei a estudar algo
que sempre gostei e nunca tinha tido coragem, inscrevi-me no ISPA no Mestrado Integrado de
Psicologia Clinica.
Mais tarde, aos 50, deixei o meu trabalho para me dedicar inteiramente a este novo caminho.
Não foi fácil. Houve dúvidas, incertezas, momentos de cansaço e de questionamento.
Mas foi também um processo profundamente transformador.
Durante o mestrado, aprofundei temas que hoje são centrais no meu trabalho, nomeadamente
a identidade, a pertença e o impacto que tem, em cada pessoa, sentir-se (ou não) vista e
aceite.
Na minha dissertação, explorei o Teatro Playback com a comunidade LGBTQIA+, e foi nesse
contexto que compreendi algo que levo comigo até hoje:
Partilhar histórias, pensamentos e experiências de vida tem um poder transformador.
Quando nos ouvimos uns aos outros, percebemos que não estamos sozinhos.
E isso, por si só, pode ser profundamente empoderador.
Dá-nos força.
Dá-nos resiliência.
Dá-nos sentido.
Hoje, como psicóloga, acompanho pessoas que vivem com ansiedade, insegurança, dúvidas
sobre si mesmas ou dificuldades em encontrar o seu lugar.
Pessoas que, muitas vezes, carregam histórias em silêncio.
E acredito profundamente que cada pessoa precisa, e merece, um espaço onde possa existir
sem medo de julgamento.
Atualmente, estou a construir o meu caminho na prática clínica, com consultas presenciais em
Alcochete e também em formato online.
Volto também à instituição onde trabalhei durante tantos anos, mas agora com um novo olhar
e uma nova missão, através de um projeto que integra consultas e formação.
Além disso, colaboro na dinamização de um grupo de mães sós, no âmbito do Projeto de Apoio
à Vida da Misericórdia do Montijo, um espaço onde, mais uma vez, a partilha e o encontro
fazem toda a diferença.
Talvez por tudo isto, acredito que mudar não é apenas uma decisão.
É um processo interno.
Profundo.
Por vezes difícil.
Mas também cheio de possibilidade.
Se estás numa fase de questionamento, mudança ou procura, talvez este seja um desses
momentos.
E não tens de o fazer sozinho/a.