Dra. Margarida Martins

O impacto de esconder quem realmente somos na saúde mental

Há um peso invisível que muitas pessoas carregam todos os dias: o peso de esconder quem realmente são.

Nem sempre falamos sobre isto. Muitas vezes, porque quem vive esta realidade aprendeu que mostrar determinadas partes da sua identidade pode trazer críticas, rejeição, discriminação ou incompreensão. Por isso, esconder quem somos pode surgir como uma estratégia de proteção.

Em muitos contextos, essa estratégia faz sentido. Quando não nos sentimos seguros, é natural tentarmos adaptar-nos para evitar sofrimento.

No entanto, aquilo que inicialmente protege também pode, com o tempo, tornar-se uma fonte de desgaste emocional.

O esforço psicológico de esconder a identidade

Esconder partes de nós próprios exige muito mais energia do que imaginamos.

Não se trata apenas de evitar determinados assuntos. Significa vigiar constantemente aquilo que dizemos, a forma como agimos, as emoções que demonstramos e até os sonhos ou projetos que partilhamos com os outros.

Este estado permanente de vigilância mantém o cérebro em alerta e aumenta a carga cognitiva diária. A energia que poderia ser utilizada para trabalhar, estudar, criar, estabelecer relações ou simplesmente descansar passa a ser utilizada para manter uma imagem considerada “segura”.

Ao longo do tempo, este esforço constante pode contribuir para o aparecimento de cansaço emocional, ansiedade, dificuldades de concentração e uma sensação persistente de exaustão. Quando a distância entre aquilo que somos e aquilo que mostramos aos outros se prolonga, pode surgir um conflito interno que a Psicologia ajuda a compreender através do conceito de dissonância cognitiva.

O que é a dissonância cognitiva?

A dissonância cognitiva refere-se ao desconforto psicológico que surge quando existe uma incompatibilidade entre aquilo que pensamos, sentimos, valorizamos ou acreditamos e a forma como agimos ou vivemos.

Uma das situações em que esse desconforto pode surgir é quando sentimos que precisamos de esconder partes importantes da nossa identidade para sermos aceites. Quanto maior for a distância entre aquilo que vivemos internamente e aquilo que mostramos ao mundo, maior pode ser o desgaste emocional associado.

Quando esta discrepância se mantém durante muito tempo, é comum surgirem sentimentos de tensão, conflito interno e uma sensação persistente de que estamos a viver de forma pouco coerente connosco próprios.

Como esconder quem somos pode afetar a saúde mental

Viver constantemente a esconder partes importantes da própria identidade pode ter um impacto significativo na saúde mental.

Entre as consequências mais frequentes encontram-se:

  • Ansiedade persistente;
  • Cansaço emocional;
  • Baixa autoestima;
  • Sentimentos de solidão;
  • Sensação de vazio;
  • Medo constante de ser descoberto ou rejeitado;
  • Dificuldade em estabelecer relações profundas e autênticas;
  • Maior vulnerabilidade ao stress, depressão e burnout emocional.

Muitas pessoas descrevem uma sensação particularmente dolorosa: sentir-se rodeadas de pessoas e, ainda assim, acreditar que ninguém as conhece verdadeiramente, fazendo com que nunca se sintam aceites.

A importância de nos sentirmos aceites

Os seres humanos têm uma necessidade profunda de pertença.

Mas sentir pertença não significa apenas fazer parte de um grupo. Significa sentir que podemos existir sem precisar de esconder quem somos.

Quando encontramos relações onde existe aceitação, respeito e segurança emocional, o corpo deixa de estar constantemente em estado de alerta.

A mente relaxa.

As relações tornam-se mais genuínas.

A autoestima fortalece-se.

E a energia que antes era utilizada para esconder passa a estar disponível para viver, aprender, criar, estabelecer novas ligações e investir no próprio bem-estar.

Nem sempre é possível mostrar tudo a toda a gente

Falar sobre autenticidade não significa dizer que todas as pessoas devem revelar todos os aspetos da sua vida em qualquer contexto.

Existem ambientes que podem não ser seguros e, nessas situações, proteger-se continua a ser uma estratégia legítima.

A diferença está em perceber se escolhemos conscientemente aquilo que partilhamos ou se sentimos que nunca podemos ser nós próprios em lado nenhum.

Quando não existe um único espaço onde possamos ser autênticos, o sofrimento tende a aumentar.

Como a Psicologia pode ajudar

Quando viver atrás de uma máscara se torna demasiado pesado, a psicoterapia pode ser um espaço seguro para explorar essas experiências.

Num contexto de aceitação, confidencialidade e ausência de julgamento, é possível compreender o impacto que esconder partes da identidade teve ao longo da vida, fortalecer a autoestima, reduzir a ansiedade e desenvolver formas mais autênticas de estar consigo e com os outros.

Nem sempre é possível mudar imediatamente o contexto onde vivemos.

Mas é possível construir recursos internos que permitam viver com maior coerência entre quem somos e a forma como nos relacionamos com o mundo.

Porque uma das necessidades humanas mais profundas não é apenas ser amado.

É sentir que somos aceites precisamente por aquilo que realmente somos.

Dra. Margarida Martins