Quando pensamos em psicoterapia, é comum imaginarmos um psicólogo a fazer perguntas, aplicar técnicas ou ensinar estratégias para lidar com determinados problemas.
Mas a psicoterapia não acontece apenas através de técnicas.
Acontece também dentro de uma relação.
Essa relação, construída entre o psicólogo e a pessoa que procura acompanhamento, chama-se relação terapêutica.
É uma das dimensões importantes do processo psicoterapêutico e pode influenciar a forma como a pessoa se sente durante as consultas, a sua disponibilidade para falar sobre aquilo que a preocupa e a possibilidade de construir um espaço de mudança.
O que é a relação terapêutica?
A relação terapêutica é a relação profissional que se constrói entre o psicólogo e a pessoa acompanhada ao longo do processo de psicoterapia.
Não se trata simplesmente de “gostar” do psicólogo ou de sentir simpatia por ele.
Envolve a construção de um espaço baseado em princípios como:
- confiança;
- empatia;
- respeito;
- colaboração;
- aceitação;
- segurança psicológica;
- ausência de julgamento.
É neste espaço que a pessoa pode começar, progressivamente, a falar sobre pensamentos, emoções, experiências e comportamentos que talvez nunca tenha conseguido partilhar com outras pessoas.
Por isso, a relação terapêutica não é apenas o contexto onde a terapia acontece.
Em muitos momentos, ela própria faz parte do processo terapêutico.
A relação terapêutica não é uma amizade
Uma questão que pode surgir é: se existe confiança, proximidade e partilha emocional, qual é a diferença entre a relação terapêutica e uma amizade?
A diferença está nos limites, objetivos e responsabilidades da relação.
O psicólogo pode ser genuíno, próximo, atento e emocionalmente presente, mas continua a existir uma relação profissional.
O objetivo não é estabelecer uma amizade, nem criar uma relação de dependência.
O objetivo é proporcionar um espaço seguro onde a pessoa possa compreender melhor aquilo que está a viver, desenvolver recursos e encontrar novas formas de lidar com as suas dificuldades.
Por isso, existem limites profissionais que protegem ambas as partes e ajudam a manter o foco no processo terapêutico.
É normal não confiar imediatamente no psicólogo?
Sim.
A confiança não precisa de surgir na primeira consulta.
Aliás, para algumas pessoas, confiar num profissional que acabaram de conhecer pode ser difícil.
No início da psicoterapia, pode existir algum desconforto. Afinal, não é necessariamente fácil falar com alguém que ainda não conhecemos sobre experiências dolorosas, relações difíceis, medos, pensamentos que escondemos ou partes de nós que receamos que sejam incompreendidas.
A relação terapêutica vai sendo construída ao longo do tempo.
Pode começar quando a pessoa percebe que pode falar ao seu ritmo.
Quando sente que pode dizer “não sei”.
Quando consegue fazer uma pergunta.
Quando percebe que pode discordar.
Quando chora sem precisar de se justificar.
Ou quando consegue falar sobre algo de que sente vergonha e descobre que não é recebida com julgamento.
A confiança constrói-se através destas pequenas experiências de segurança.
O psicólogo deve concordar sempre connosco?
Não.
Ter uma boa relação terapêutica não significa que o psicólogo concorde com tudo aquilo que a pessoa diz ou faz.
Na realidade, a psicoterapia também pode envolver momentos de desconforto.
O psicólogo pode fazer perguntas difíceis, ajudar a identificar contradições, explorar determinados padrões de comportamento ou chamar a atenção para formas de pensar que podem estar a contribuir para o sofrimento.
Isso não significa que a relação terapêutica esteja a falhar.
Por vezes, o desconforto pode fazer parte do processo de mudança.
A questão está na forma como esse desconforto é trabalhado.
Uma intervenção terapêutica deve ter em conta a pessoa, o seu momento de vida, os seus recursos e a capacidade que tem naquele momento para lidar com determinado tema.
Questionar não é o mesmo que julgar.
Discordar não é o mesmo que desvalorizar.
E estabelecer limites não significa deixar de existir empatia.
E quando algo corre mal na relação terapêutica?
Mesmo numa boa relação terapêutica podem surgir mal-entendidos.
A pessoa pode sentir que não foi compreendida.
Pode ficar incomodada com alguma coisa que o psicólogo disse.
Pode sentir que determinada intervenção não está a resultar.
Pode até sentir-se zangada, frustrada ou desiludida com o psicólogo.
Isso não significa necessariamente que a terapia tenha de terminar.
Quando existe espaço para falar sobre aquilo que aconteceu, estas situações podem tornar-se importantes momentos do processo terapêutico.
Dizer:
“Não me senti compreendida quando disse isso.”
ou
“Não sei se esta abordagem está a resultar comigo.”
é também uma forma de comunicar necessidades, estabelecer limites e experimentar uma maneira diferente de lidar com o conflito.
O psicólogo deve estar disponível para escutar esse feedback e refletir sobre o que está a acontecer na relação.
O que é a aliança terapêutica?
A expressão aliança terapêutica é frequentemente utilizada para descrever uma dimensão fundamental da relação entre psicólogo e pessoa acompanhada.
De forma simples, podemos pensar na aliança terapêutica como a existência de:
Objetivos partilhados
O psicólogo e a pessoa procuram compreender e trabalhar aquilo que levou à terapia.
Colaboração
A terapia não é algo que o psicólogo “faz” à pessoa. É um processo construído em conjunto.
Vínculo
Existe uma relação baseada em confiança, respeito e segurança suficientes para permitir o trabalho terapêutico.
Uma boa aliança terapêutica não significa que nunca existam divergências.
Significa que existe espaço para reconhecer essas diferenças, falar sobre elas e continuar a trabalhar em conjunto.
Como saber se existe uma boa relação terapêutica?
Não existe uma fórmula única.
Cada pessoa terá uma experiência diferente e, sobretudo no início, pode ser difícil perceber se encontrou o profissional adequado.
Ainda assim, alguns sinais podem ser importantes.
Pode existir uma boa relação terapêutica quando, progressivamente, sente que:
- consegue falar sem medo constante de ser julgada;
- pode colocar dúvidas ou discordar;
- sente que o psicólogo compreende aquilo que está a tentar transmitir;
- percebe quais são os objetivos do acompanhamento;
- sente que existe colaboração;
- consegue falar sobre assuntos difíceis, mesmo que isso provoque algum desconforto;
- sente que os seus limites são respeitados;
- percebe que a terapia está a ser adaptada às suas necessidades.
É importante lembrar que sentir algum desconforto não significa necessariamente que a relação terapêutica seja má.
A psicoterapia pode tocar em temas difíceis.
A questão é perceber se existe segurança suficiente para que esse desconforto possa ser explorado e trabalhado.
E se eu não me identificar com o meu psicólogo?
Nem sempre existe compatibilidade entre uma pessoa e um determinado profissional.
Um psicólogo pode ser competente e, ainda assim, não ser a pessoa certa para aquele momento ou para aquela pessoa.
A abordagem terapêutica, a personalidade, a forma de comunicação, o ritmo das consultas e até aquilo que cada pessoa espera da terapia podem influenciar esta experiência.
Por isso, procurar outro psicólogo quando sentimos que não existe uma boa correspondência não significa que a psicoterapia não funciona.
Significa reconhecer que a relação terapêutica é importante.
Quando possível, também pode ser útil falar diretamente com o psicólogo sobre aquilo que não está a resultar.
Essa conversa, por si só, pode trazer informação importante sobre o processo.
A relação terapêutica também pode ensinar novas formas de nos relacionarmos
Existe ainda uma dimensão particularmente interessante da relação terapêutica.
A consulta pode tornar-se um espaço onde a pessoa experimenta, talvez pela primeira vez, algumas formas diferentes de relação.
Pode aprender que é possível:
- expressar desacordo sem perder uma relação;
- estabelecer limites sem precisar de se afastar;
- pedir ajuda sem sentir vergonha;
- mostrar vulnerabilidade sem ser humilhada;
- falar sobre uma necessidade sem ter de a esconder;
- reparar um mal-entendido através da comunicação.
Neste sentido, a relação terapêutica não serve apenas para falar sobre as relações que temos fora da consulta.
Em alguns momentos, a própria relação pode tornar-se uma oportunidade para experimentar e compreender novas formas de estar com o outro.
Em resumo
A relação terapêutica é muito mais do que uma boa relação entre duas pessoas.
É uma relação profissional, intencional e colaborativa, construída para apoiar o processo de mudança.
Não precisa de existir confiança imediata.
Não precisa de existir concordância permanente.
E não precisa de ser uma relação sem desconforto.
O que importa é existir um espaço suficientemente seguro para que aquilo que acontece entre psicólogo e pessoa possa também ser pensado, questionado e trabalhado.
Porque, por vezes, a forma como conseguimos estar numa relação terapêutica pode ajudar-nos a descobrir novas formas de estar nas outras relações da nossa vida.
Perguntas frequentes sobre a relação terapêutica
É normal não gostar imediatamente do meu psicólogo?
Sim. A relação terapêutica vai sendo construída e a confiança pode demorar algum tempo a surgir.
O psicólogo pode ser meu amigo?
A relação terapêutica é uma relação profissional e deve manter limites claros. Pode existir proximidade e genuinidade sem que isso se transforme numa amizade.
Posso dizer ao psicólogo que não concordo com ele?
Sim. Poder expressar desacordo, dúvidas ou desconforto é uma parte importante de uma relação terapêutica saudável.
O que fazer se sentir que o meu psicólogo não me compreende?
Sempre que se sentir capaz e seguro para o fazer, pode falar diretamente sobre essa experiência. Esse diálogo pode ajudar a compreender o que está a acontecer e a ajustar o processo terapêutico.
Uma relação terapêutica difícil significa que a terapia não funciona?
Não necessariamente. Podem existir momentos de desconforto, divergência ou mal-entendidos. O importante é perceber se existe espaço para os reconhecer e trabalhar.