Quando falamos de inclusão, pensamos muitas vezes em deficiência, acessibilidade, diversidade de género, orientação sexual, cultura ou tom de pele. Mas será que inclusão é apenas garantir que pessoas diferentes têm acesso aos mesmos espaços e oportunidades?
Não. A inclusão é muito mais ampla.
Incluir significa criar condições para que diferentes pessoas possam participar, pertencer e sentir-se respeitadas, sem terem de esconder aquilo que são ou adaptar constantemente a sua identidade para corresponder ao que a sociedade considera “normal”.
O que é inclusão?
A inclusão pode ser entendida como um processo de reconhecer e valorizar a diversidade humana, procurando eliminar barreiras que podem impedir determinadas pessoas de participar plenamente na sociedade.
Essas barreiras nem sempre são físicas.
Podem estar nas regras, nos espaços, na comunicação, nas expectativas, nos comportamentos ou nos próprios preconceitos que, muitas vezes sem nos apercebermos, carregamos.
Uma pessoa que utiliza uma cadeira de rodas pode encontrar barreiras arquitetónicas.
Uma pessoa com deficiência intelectual pode encontrar dificuldades quando a informação não é apresentada de forma acessível.
Uma pessoa autista pode sentir-se sobrecarregada num ambiente com excesso de estímulos.
Uma pessoa trans pode ser excluída quando o seu nome ou identidade não são respeitados.
Uma pessoa com altas capacidades pode sentir-se incompreendida num sistema educativo pouco adaptado às suas necessidades.
Uma pessoa com um corpo maior pode ser alvo de comentários, julgamentos ou discriminação.
Uma pessoa que aprende ou comunica de uma forma diferente pode sentir que precisa constantemente de provar o seu valor.
Todas estas situações são diferentes, mas têm algo em comum: a diferença pode tornar-se motivo de exclusão quando os espaços e as pessoas não estão preparados para acolher a diversidade.
Inclusão não significa fazer com que todos sejam iguais
Um dos equívocos mais comuns sobre inclusão é pensar que ser inclusivo significa tratar toda a gente exatamente da mesma forma.
Mas igualdade e inclusão não são necessariamente a mesma coisa.
Se duas pessoas têm necessidades diferentes, oferecer exatamente os mesmos recursos pode não permitir que ambas tenham as mesmas oportunidades.
Uma pessoa pode precisar de uma rampa.
Outra pode precisar de mais tempo para realizar uma tarefa.
Outra pode beneficiar de instruções mais claras e objetivas.
Outra pode precisar de um ambiente com menos estímulos sensoriais.
Outra pode simplesmente precisar que respeitem o seu nome, a sua identidade ou os seus limites.
Reconhecer estas necessidades não é criar privilégios. É procurar remover barreiras.
A verdadeira inclusão não procura apagar as diferenças. Procura garantir que essas diferenças não se transformam numa desvantagem.
Inclusão não é pedir às pessoas para “caberem”
Existe uma pergunta que pode mudar a forma como pensamos sobre inclusão.
Em vez de perguntarmos:
“Como podemos fazer com que estas pessoas se adaptem?”
Podemos perguntar:
“O que podemos mudar para que mais pessoas possam pertencer?”
Esta mudança de perspetiva é fundamental.
Durante muito tempo, muitas pessoas foram ensinadas a adaptar-se aos espaços existentes. A aprender a comportar-se de determinada maneira. A esconder características que poderiam provocar julgamento. A não falar sobre determinadas experiências. A tentar “encaixar”.
Mas quando uma pessoa passa grande parte da sua vida a tentar encaixar-se, o custo psicológico pode ser significativo.
Qual é a relação entre inclusão e saúde mental?
A inclusão está também relacionada com a saúde psicológica e o bem-estar emocional.
Sentir que pertencemos é uma necessidade humana importante. Quando uma pessoa sente que é aceite, respeitada e valorizada, pode desenvolver um maior sentimento de segurança e pertença.
Pelo contrário, experiências repetidas de rejeição, discriminação, preconceito ou exclusão podem contribuir para sentimentos de solidão, vergonha, ansiedade, baixa autoestima e sofrimento psicológico.
Isto não significa que a diferença seja, por si só, um problema.
O problema surge muitas vezes na forma como a sociedade responde à diferença.
Uma pessoa não sofre necessariamente porque é diferente. Pode sofrer porque é constantemente lembrada de que, aos olhos dos outros, é diferente.
Pode acontecer quando alguém tem de explicar repetidamente quem é.
Quando sente que precisa de esconder uma parte de si.
Quando antecipa rejeição.
Quando evita determinados espaços por medo de ser julgada.
Quando sente que precisa de agradecer por ser “aceite”.
Por isso, falar de inclusão é também falar de saúde mental, pertença, segurança e dignidade.
A importância do sentimento de pertença
Sentir que pertencemos significa poder estar num espaço sem sentir que temos constantemente de justificar a nossa presença.
Significa poder participar.
Significa poder falar.
Significa poder ser reconhecido.
Significa sentir que a nossa existência não é uma inconveniência que os outros têm de tolerar.
O sentimento de pertença pode ser particularmente importante em contextos como a escola, o trabalho, a família, os serviços de saúde e as relações sociais.
Quando estes contextos são mais inclusivos, podem tornar-se espaços de proteção e apoio.
Quando são marcados pela exclusão, podem transformar-se em fontes adicionais de sofrimento.
Como podemos ser mais inclusivos no dia a dia?
A inclusão não depende apenas de grandes políticas ou mudanças institucionais. Também começa nos pequenos comportamentos quotidianos.
Podemos começar por:
- questionar preconceitos que damos como certos;
- evitar fazer comentários sobre o corpo ou aparência das outras pessoas;
- respeitar o nome e a identidade de cada pessoa;
- procurar formas de comunicação mais acessíveis;
- não assumir que todas as pessoas têm as mesmas necessidades;
- perguntar, em vez de presumir;
- ouvir experiências diferentes das nossas;
- evitar transformar uma pessoa na “representante” de todo um grupo;
- reconhecer quando cometemos um erro e corrigi-lo;
- criar espaços onde as pessoas possam expressar as suas necessidades sem vergonha.
Ser inclusivo não significa saber sempre o que fazer.
Significa estar disponível para aprender, ouvir e mudar.
Inclusão começa quando deixamos de perguntar quem merece caber
Pensar sobre inclusão é, no fundo, pensar sobre a forma como construímos os nossos espaços e as nossas relações.
Quem consegue entrar?
Quem consegue participar?
Quem consegue ser ouvido?
Quem se sente seguro?
Quem sente que tem de esconder uma parte de si?
E quem continua de fora?
Talvez a questão não seja:
“Como fazemos estas pessoas caber?”
Talvez seja:
“Como construímos espaços onde mais pessoas possam caber?”
Porque incluir não significa ignorar as diferenças.
Significa reconhecer a diversidade humana sem transformar a diferença numa desvantagem.
E talvez uma sociedade verdadeiramente inclusiva não seja aquela onde todos são iguais.
Seja aquela onde ninguém precisa de ser igual para poder pertencer.
Inclusão também é cuidar da saúde mental
Quando pensamos em saúde mental, é importante olhar não apenas para o indivíduo, mas também para os contextos em que vive.
Família, escola, trabalho, comunidade e sociedade podem funcionar como espaços de proteção, mas também podem contribuir para experiências de exclusão e sofrimento.
Criar ambientes mais inclusivos é, por isso, também uma forma de promover bem-estar psicológico, respeito, segurança e pertença.
A inclusão começa muitas vezes numa pergunta simples:
“O que posso fazer para que esta pessoa se sinta verdadeiramente incluída?”
E essa pergunta pode ser o início de uma mudança muito maior.