Nem sempre uma criança que está a sofrer chora.
Por vezes, torna-se mais calada, irrita-se com facilidade ou começa a afastar-se das pessoas de quem gostava. Pode ter dificuldades na escola, discutir mais, parecer constantemente em alerta ou queixar-se repetidamente de dores de cabeça ou de barriga.
Estas mudanças são, muitas vezes, interpretadas apenas como “mau comportamento”, falta de educação, preguiça ou desobediência. No entanto, o comportamento infantil pode ser uma forma de comunicação.
Quando uma criança ainda não consegue compreender, organizar ou expressar por palavras aquilo que está a sentir, pode comunicá-lo através daquilo que faz — ou daquilo que deixa de fazer.
O comportamento infantil também comunica emoções
As crianças não têm sempre vocabulário emocional para explicar que estão ansiosas, tristes, assustadas, frustradas ou a sentir-se rejeitadas.
Mesmo quando já conseguem identificar algumas emoções, podem não se sentir seguras para falar sobre elas. Podem ter medo de preocupar os adultos, de serem castigadas, de não serem compreendidas ou de que ninguém acredite nelas.
Nestas situações, o sofrimento pode manifestar-se através do comportamento.
Uma criança pode:
- tornar-se mais reservada ou isolada;
- irritar-se com facilidade;
- ter crises de choro ou explosões de raiva;
- começar a desafiar regras que anteriormente cumpria;
- apresentar dificuldades de concentração;
- ter uma quebra no desempenho escolar;
- perder o interesse por atividades de que gostava;
- ter dificuldade em adormecer ou acordar durante a noite;
- mostrar medo de se separar das figuras de referência;
- voltar a apresentar comportamentos de fases anteriores do desenvolvimento;
- queixar-se frequentemente de dores de cabeça, dores de barriga ou mal-estar;
- parecer excessivamente preocupada, vigilante ou tensa.
Nenhum destes sinais permite, isoladamente, concluir que existe um problema psicológico. Contudo, quando representam uma mudança significativa, persistem ao longo do tempo ou interferem com a vida quotidiana da criança, merecem atenção.
O “mau comportamento” pode esconder sofrimento emocional
Nem todo o comportamento desafiador é um pedido de ajuda. As crianças também testam limites, sentem frustração, cansam-se e atravessam diferentes fases do desenvolvimento.
Ainda assim, quando nos concentramos apenas em corrigir o comportamento, podemos deixar de perceber aquilo que está por detrás dele.
Uma criança que agride pode estar a sentir-se ameaçada.
Uma criança que se recusa a ir à escola pode estar a viver uma situação de bullying.
Uma criança que parece não ouvir pode estar demasiado preocupada para conseguir prestar atenção.
Uma criança que tem uma birra pode ainda não conseguir regular uma emoção muito intensa.
Uma criança que se isola pode ter aprendido que falar sobre aquilo que sente não é seguro.
Isto não significa ignorar comportamentos inadequados ou deixar de estabelecer regras. As crianças precisam de limites claros, consistentes e ajustados à idade. Mas é possível corrigir um comportamento e, ao mesmo tempo, tentar compreender a necessidade, a emoção ou a dificuldade que lhe está associada.
O que pode estar por detrás de uma mudança de comportamento?
As alterações no comportamento infantil podem estar relacionadas com muitas circunstâncias diferentes.
A criança pode estar a enfrentar mudanças em casa, como uma separação, a chegada de um irmão, uma doença na família, dificuldades económicas ou a perda de alguém significativo. Pode viver num ambiente marcado por conflito, tensão ou pouca disponibilidade emocional dos adultos.
Também pode sentir-se rejeitada, não corresponder às expectativas da família ou acreditar que algumas partes de si não são aceites. A falta de aceitação no contexto familiar pode ter um impacto profundo no sentimento de segurança e pertença. Este tema é desenvolvido no artigo Rejeição familiar e saúde mental: quando a falta de aceitação vem de quem mais amamos.
Noutros casos, a dificuldade pode estar na escola. O bullying, a exclusão social, os conflitos com colegas, as dificuldades de aprendizagem ou a pressão para obter bons resultados podem provocar alterações emocionais e comportamentais importantes. Para compreender melhor este fenómeno, poderá ler Bullying: compreender para prevenir e transformar.
Por vezes, a criança sente simplesmente que não tem um espaço onde possa ser ela própria. Todas as crianças precisam de sentir que pertencem e que serão respeitadas, mesmo quando são diferentes daquilo que os outros esperavam. A forma como os adultos falam sobre as diferenças também influencia esse sentimento, como explico em A linguagem molda a forma como as crianças veem o mundo.
Antes de perguntar “o que é que ela tem?”
Quando uma criança muda de comportamento, é natural que os adultos queiram encontrar rapidamente uma explicação. No entanto, nem sempre é possível identificar de imediato uma causa — e pressionar a criança para falar pode fazer com que se feche ainda mais.
Em vez de perguntar apenas:
“O que é que ela tem?”
Pode ser mais útil perguntar:
“O que é que ela poderá estar a viver?”
Esta mudança de perspetiva ajuda-nos a olhar para o comportamento com curiosidade e empatia, sem retirar aos adultos a responsabilidade de orientar, proteger e estabelecer limites.
O objetivo não é procurar uma explicação para desculpar todos os comportamentos. É compreender para poder intervir de forma mais adequada.
Como conversar com uma criança que parece estar a sofrer
A conversa não precisa de começar com perguntas muito diretas. Pode começar por uma observação simples e tranquila:
“Tenho reparado que tens estado mais calado e preocupado. Queres contar-me se aconteceu alguma coisa?”
Também pode ser útil:
- escolher um momento calmo e sem distrações;
- descrever aquilo que foi observado, evitando acusações;
- fazer perguntas abertas e adequadas à idade;
- respeitar os silêncios e o tempo da criança;
- não insistir para que conte tudo imediatamente;
- validar aquilo que está a sentir;
- evitar minimizar, comparar ou dar soluções demasiado rápidas;
- transmitir claramente que a criança não está sozinha;
- manter limites consistentes, explicando-os com serenidade.
Escutar não significa concordar com tudo nem permitir qualquer comportamento. Significa procurar compreender a experiência da criança antes de decidir como responder.
A escuta ativa e a validação emocional podem ajudar a criança a sentir-se segura, compreendida e progressivamente mais capaz de identificar e comunicar as próprias emoções.
Quando procurar ajuda profissional?
Pode ser importante procurar apoio quando as alterações de comportamento são intensas, persistentes ou interferem com a vida familiar, escolar ou social da criança.
Alguns sinais que justificam uma avaliação mais cuidada incluem:
- isolamento crescente;
- perda marcada de interesse ou prazer;
- alterações importantes no sono ou no apetite;
- medo intenso ou ansiedade persistente;
- recusa frequente em ir à escola;
- queda acentuada no desempenho escolar;
- agressividade frequente ou difícil de controlar;
- queixas físicas recorrentes;
- comportamentos regressivos persistentes;
- referências à morte, ao desaparecimento ou à vontade de não existir;
- suspeita de bullying, abuso, violência ou negligência.
As queixas físicas recorrentes devem também ser avaliadas por um profissional de saúde, mesmo quando se suspeita de uma componente emocional. O facto de a ansiedade ou o sofrimento psicológico se poderem manifestar no corpo não significa que se deva excluir uma possível causa médica.
A avaliação psicológica procura compreender a criança no seu contexto, considerando o seu desenvolvimento, as relações familiares, a escola, as experiências recentes e os recursos disponíveis.
Não se trata apenas de “corrigir” o comportamento, mas de perceber aquilo que ele poderá estar a comunicar.
Uma criança não precisa apenas de se portar melhor
Perante um comportamento difícil, é compreensível que os adultos se sintam cansados, preocupados ou sem saber como reagir.
Mas, muitas vezes, aquilo de que uma criança mais precisa não é apenas que lhe digam para se portar melhor.
Precisa de alguém que esteja disponível para olhar para além do comportamento.
Alguém que mantenha os limites, mas que também procure compreender.
Alguém que lhe mostre que as emoções difíceis podem ser expressas e acolhidas.
Porque, quando uma criança sente que existe um adulto capaz de a escutar sem a julgar, começa a aprender que não precisa de enfrentar tudo sozinha.