Dra. Margarida Martins

Grounding: o que é e como nos pode ajudar a voltar ao momento presente

Há momentos em que a mente parece correr demasiado depressa. Pensamentos repetitivos, ansiedade, sensação de “desligamento”, dificuldade em concentrar-se ou até a sensação de estar emocionalmente sobrecarregado podem fazer-nos sentir afastados de nós próprios e do presente.

É precisamente nestes momentos que as técnicas de grounding podem ser úteis.

O que é o grounding?

A palavra grounding pode ser traduzida como “ancoragem” ou “ligação ao chão”. Em psicologia, refere-se a estratégias que ajudam a pessoa a reconectar-se com o momento presente, com o corpo e com o ambiente à sua volta.

O grounding não elimina imediatamente a ansiedade, a tristeza ou o stress, mas ajuda o sistema nervoso a recuperar alguma sensação de segurança e estabilidade. É uma forma de interromper a espiral de pensamentos e trazer a atenção para aquilo que está a acontecer aqui e agora.

Estas técnicas são frequentemente utilizadas em contextos de:

  • Ansiedade e ataques de pânico;
  • Stress intenso;
  • Sobrecarga emocional;
  • Dissociação;
  • Trauma psicológico;
  • Pensamentos intrusivos;
  • Dificuldades de regulação emocional.

Porque funciona?

Quando estamos muito ansiosos ou emocionalmente ativados, o cérebro tende a entrar num estado de alerta. O grounding ajuda a “informar” o cérebro de que estamos seguros no presente.

Ao focarmo-nos nos sentidos, na respiração ou em estímulos concretos do ambiente, ativamos áreas do cérebro associadas à atenção e à autorregulação, diminuindo gradualmente a sensação de ameaça.

Técnicas simples de grounding

1. Técnica dos 5 sentidos

Uma das estratégias mais conhecidas consiste em identificar:

  • 5 coisas que consegue ver;
  • 4 coisas que consegue tocar;
  • 3 coisas que consegue ouvir;
  • 2 coisas que consegue cheirar;
  • 1 coisa que consegue saborear.

Esta técnica ajuda a recentrar a atenção no ambiente e a diminuir a intensidade dos pensamentos ansiosos.

2. Contacto com o corpo

Pequenos gestos corporais podem ajudar a recuperar a sensação de presença:

  • Colocar os pés firmemente no chão;
  • Sentir a textura da roupa ou de um objeto;
  • Apertar suavemente as mãos;
  • Alongar o corpo;
  • Segurar uma chávena quente.

O objetivo não é “desligar” emoções, mas voltar a sentir o corpo como um lugar seguro.

3. Respiração consciente

A respiração pode funcionar como uma âncora.

Experimente inspirar lentamente durante 4 segundos, manter 4 segundos e expirar durante 4 segundos, manter apneia durante 4 segundos. Repetir este ritmo algumas vezes pode ajudar o corpo a reduzir o estado de alerta.

4. Descrever o ambiente

Olhar à volta e descrever mentalmente o espaço pode ajudar a interromper pensamentos automáticos:

“Estou sentado numa cadeira azul.”

“Consigo ouvir carros lá fora.”

“A janela está aberta e entra luz.”

Esta estratégia simples ajuda o cérebro a reorganizar-se no presente.

O grounding não é evitar emoções

É importante lembrar que grounding não significa ignorar aquilo que sentimos.

As emoções têm uma função e precisam de ser compreendidas. O grounding serve como uma ferramenta de estabilização emocional, especialmente quando a intensidade emocional é tão elevada que deixa de ser possível pensar com clareza.

Em contexto terapêutico, estas técnicas podem ajudar a criar condições internas de maior segurança para depois explorar emoções, pensamentos e experiências de forma mais integrada.

Quando procurar ajuda?

Embora as técnicas de grounding possam ser muito úteis no dia a dia, não substituem acompanhamento psicológico quando existe sofrimento emocional persistente.

Se sente ansiedade intensa frequente, crises de pânico, sensação de desligamento emocional ou dificuldade em lidar com emoções, procurar apoio psicológico pode ser um passo importante.

A terapia pode ajudar não apenas a gerir sintomas, mas também a compreender as causas do sofrimento e desenvolver estratégias de regulação emocional mais adaptadas às suas necessidades.


Por vezes, voltar ao presente começa com algo muito simples: sentir os pés no chão, respirar fundo e lembrar-se de que este momento pode ser vivido um passo de cada vez.

Dra. Margarida Martins