Dra. Margarida Martins

Rejeição familiar e saúde mental: quando a falta de aceitação vem de quem mais amamos

Ser rejeitado por alguém é doloroso.

Mas sentir-se rejeitado pela própria família pode ser uma das experiências emocionais mais difíceis de viver.

A família costuma ser o primeiro lugar onde aprendemos quem somos, quanto valemos e se o mundo é um lugar seguro para existir. É nas primeiras relações que começamos a construir a autoestima, a confiança nos outros e a forma como interpretamos o amor.

Quando a rejeição vem precisamente das pessoas de quem mais esperamos proteção e aceitação, o impacto psicológico pode ser profundo e prolongar-se muito para além da infância ou da adolescência.

O que é a rejeição familiar?

Muitas pessoas imaginam a rejeição familiar como uma situação extrema: ser expulso de casa ou cortar completamente relações.

Embora essas situações existam, a rejeição pode assumir formas muito mais subtis.

Pode surgir em frases como:

  • “É só uma fase.”
  • “Não fales disso.”
  • “Preferia que ninguém soubesse.”
  • “Continuas a ser meu filho(a), mas…”

Também pode manifestar-se através do silêncio, da distância emocional, da crítica constante, da invalidação das emoções ou da recusa em reconhecer uma parte importante da identidade da pessoa.

Mesmo quando existe contacto diário, estas atitudes podem transmitir uma mensagem silenciosa, mas profundamente marcante:

“Só és plenamente aceite se fores diferente de quem és.”

Perante esta mensagem, muitas pessoas começam a esconder partes importantes daquilo que são, numa tentativa de preservar a relação ou evitar novas experiências de rejeição. Embora esta estratégia possa parecer protetora, viver constantemente entre quem somos e aquilo que mostramos aos outros pode ter um impacto significativo na saúde mental. Se quiser aprofundar este tema, poderá interessar-lhe ler “O impacto de esconder quem realmente somos na saúde mental”:

O impacto da rejeição familiar na saúde mental

A investigação em Psicologia mostra que a aceitação familiar é um dos principais fatores de proteção para a saúde mental.

Da mesma forma, a rejeição familiar constitui um importante fator de risco para diversas dificuldades psicológicas.

Pessoas que vivem experiências persistentes de rejeição por parte da família apresentam maior probabilidade de desenvolver:

  • depressão;
  • ansiedade;
  • baixa autoestima;
  • sentimentos de vergonha;
  • isolamento social;
  • consumo problemático de álcool ou outras substâncias;
  • ideação suicida e tentativas de suicídio.

Em situações mais graves, algumas pessoas são expulsas de casa ou abandonadas pela família, ficando mais expostas à pobreza, à exclusão social e à situação de sem-abrigo.

O sofrimento não resulta apenas da perda do apoio familiar. Resulta também da perda do sentimento de pertença, uma necessidade psicológica fundamental para qualquer ser humano.

Quando crescemos com receio de perder o amor e a aceitação das pessoas mais importantes da nossa vida, é comum começarmos a antecipar a rejeição também nas relações futuras. Este mecanismo pode influenciar a forma como interpretamos os comportamentos dos outros e a forma como nos relacionamos ao longo da vida. Se gostaria de compreender melhor este processo, pode ler também “Expectativa de rejeição: quando aprendemos a esperar que os outros não nos aceitem”:

Quando as expectativas falam mais alto do que a relação

Muitas vezes, a rejeição não nasce da realidade da pessoa.

Nasce dos medos, dos preconceitos, das crenças transmitidas entre gerações ou das expectativas que os pais construíram antes mesmo de conhecerem verdadeiramente o filho.

Todos os pais imaginam, de alguma forma, como será o futuro dos seus filhos.

Criam sonhos, fazem planos e constroem imagens daquilo que esperam que eles venham a ser.

O problema surge quando essas expectativas se tornam mais importantes do que a pessoa que têm à frente.

Nenhum filho nasce para cumprir uma idealização.

Nasce para descobrir quem é.

E crescer implica, inevitavelmente, encontrar um caminho próprio, que nem sempre corresponde ao caminho que os pais imaginaram.

O amor não deveria depender da conformidade

O amor verdadeiramente seguro não exige que alguém esconda partes importantes de si para continuar a pertencer à família.

Pelo contrário.

Implica conhecer o outro na sua autenticidade, mesmo quando essa autenticidade desafia expectativas, e continuar presente.

Continuar a escutar.

Continuar a respeitar.

Continuar a acolher.

Aceitar um filho não significa concordar com todas as suas escolhas ou deixar de estabelecer limites quando estes são necessários.

Significa transmitir-lhe uma certeza fundamental: o vínculo não depende de ele corresponder a uma imagem idealizada.

Essa segurança é um dos maiores fatores de proteção para a saúde mental ao longo da vida.

As relações que promovem aceitação, validação e segurança emocional têm um enorme poder reparador. São estas relações que ajudam muitas pessoas a reconstruir a confiança em si próprias e nos outros, mesmo depois de experiências de rejeição. Se quiser aprofundar esta ideia, poderá interessar-lhe ler “Relações afirmativas: porque algumas pessoas nos ajudam a sermos mais nós próprios”:

A importância da aceitação familiar

Todas as pessoas precisam de sentir que pertencem.

Precisam de saber que podem falhar, mudar, crescer e descobrir quem são sem receio de perder o amor das pessoas mais importantes da sua vida.

Quando a família consegue oferecer esse espaço de segurança, torna-se um poderoso fator de proteção contra o sofrimento psicológico.

Porque nenhuma identidade, orientação, característica ou diferença deveria ser mais forte do que o vínculo entre um pai, uma mãe e um filho.

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Talvez uma das mensagens mais transformadoras que uma família possa transmitir seja esta:

“Não preciso que sejas diferente para te amar.”

Dra. Margarida Martins