Descansar não significa necessariamente ficar sem fazer nada.
Significa proporcionar ao corpo e à mente condições para recuperarem das exigências do quotidiano.
Para algumas pessoas, o descanso acontece através do silêncio e da redução de estímulos. Para outras, pode surgir numa caminhada, numa atividade criativa, numa conversa tranquila ou num momento partilhado em família.
O mais importante não é a ausência completa de atividade, mas a possibilidade de sair, durante algum tempo, do modo de desempenho.
Porque continuamos em alerta quando podemos descansar?
Quando vivemos durante muito tempo sob stress, podemos permanecer num estado de maior ativação, como se fosse necessário estar continuamente preparado para responder a exigências, resolver problemas ou antecipar dificuldades.
Mesmo quando chega o fim de semana ou começam as férias, a mente pode continuar ocupada com tarefas pendentes e preocupações.
O corpo também pode manifestar essa sobrecarga através de tensão muscular, alterações do sono, irritabilidade, dores de cabeça ou cansaço persistente. No artigo “Cansaço emocional: quando o corpo fala aquilo que as emoções não conseguem dizer”, explico de forma mais aprofundada como as emoções e o stress prolongado podem expressar-se através de sinais físicos.
Passar de um ritmo acelerado para um estado de tranquilidade nem sempre acontece automaticamente. Por vezes, é necessário criar uma transição e encontrar atividades que ajudem a reduzir gradualmente o nível de estimulação.
A culpa de parar
A dificuldade em descansar também pode estar relacionada com a forma como aprendemos a olhar para a produtividade.
Vivemos numa sociedade que tende a valorizar quem faz mais, produz mais e está constantemente ocupado. Aos poucos, podemos começar a associar o nosso valor pessoal àquilo que conseguimos realizar.
Quando paramos, surge a sensação de que estamos a desperdiçar tempo ou de que deveríamos estar a fazer alguma coisa mais útil.
No entanto, descansar não é preguiça nem falta de ambição.
É uma necessidade importante para preservar a saúde física e psicológica.
A recuperação permite-nos retomar as responsabilidades com mais energia, atenção e disponibilidade emocional. Quando essa possibilidade de recuperação desaparece, o cansaço pode tornar-se constante, mesmo nos períodos em que aparentemente não está a acontecer nada de particularmente difícil.
Esta sensação é explorada no artigo “Cansaço emocional constante: porque se sente assim mesmo quando parece que está tudo bem?”.
O que é o descanso reparador?
O descanso reparador é aquele que responde às necessidades reais da pessoa naquele momento.
Depois de um esforço físico intenso, o corpo pode precisar de dormir, reduzir o movimento ou permanecer algum tempo em repouso.
Depois de um dia passado em frente a um ecrã, pode ser mais útil caminhar ao ar livre ou fazer uma atividade manual.
Quando existe sobrecarga emocional, podemos precisar de silêncio, de conversar com alguém em quem confiamos ou de realizar uma atividade que nos ajude a regressar ao presente.
Por isso, a mesma forma de descanso não funciona para todas as pessoas nem em todos os momentos.
Antes de escolher o que fazer, pode ser útil perguntar:
- O meu cansaço é sobretudo físico, mental ou emocional?
- Preciso de silêncio ou de companhia?
- Preciso de parar ou de mudar de atividade?
- Esta escolha ajuda-me a recuperar ou serve apenas para continuar distraído?
- Como me sinto depois desta atividade?
Estas perguntas ajudam a distinguir o descanso de outras formas de ocupação que mantêm a mente estimulada.
Atividades que podem ajudar a descansar
O descanso não precisa de ser vazio nem vivido de forma isolada. Pode incluir atividades simples, agradáveis e sem objetivos de desempenho.
Fazer um piquenique sem horários apertados
Um piquenique pode proporcionar contacto com a natureza, convívio e uma mudança de ambiente.
Não precisa de ser cuidadosamente planeado. Uma refeição simples num jardim pode ser suficiente para interromper a rotina e criar um momento de proximidade.
Ler por prazer
Ler um livro que desperte interesse pode ajudar a afastar temporariamente a atenção das preocupações e das tarefas diárias.
A leitura escolhida para descansar não precisa de ser educativa ou útil. Pode existir apenas pelo prazer da história e da experiência.
Experimentar uma atividade criativa
Pintar, desenhar, fazer cerâmica, croché, jardinagem ou fotografia são exemplos de atividades que podem ajudar a concentrar a atenção no momento presente.
O objetivo não é alcançar um resultado perfeito nem transformar o passatempo numa nova obrigação.
Criar também pode ser descansar quando existe liberdade para experimentar e errar.
Caminhar na natureza
Um passeio pode ajudar a mudar de ritmo e a estabelecer contacto com o ambiente.
Durante a caminhada, pode prestar atenção aos sons, às cores, aos cheiros e às sensações do corpo, em vez de continuar mentalmente preso às preocupações do dia.
Jogar com a família ou com os amigos
Os jogos de tabuleiro podem criar momentos de convívio, humor e ligação.
O valor não está em ganhar, mas em partilhar uma experiência sem a necessidade de resolver problemas práticos ou cumprir objetivos.
Ouvir música
Ouvir música, cantar ou tocar um instrumento pode facilitar a expressão emocional e proporcionar prazer.
A escolha pode depender daquilo de que precisa: tranquilidade, energia, familiaridade ou simplesmente alguns minutos de atenção dedicada a uma experiência agradável.
Conversar sem o telemóvel
Tomar um café com alguém de quem gosta, mantendo o telemóvel afastado, pode permitir uma presença mais inteira na relação.
As relações significativas podem funcionar como importantes recursos perante o stress. Este papel protetor é abordado no artigo “Relações afirmativas: porque algumas pessoas nos ajudam a sermos mais nós próprios”.
Escrever ou refletir
Escrever num diário, desenhar ou parar alguns minutos para pensar sobre o dia pode ajudar a organizar pensamentos e a reconhecer emoções.
Não é necessário escrever muito ou chegar a uma conclusão. Por vezes, nomear aquilo que sentimos já ajuda a diminuir a confusão interna.
Quando uma atividade deixa de ser descanso
Uma atividade agradável pode deixar de ser reparadora quando começa a ser vivida como mais uma obrigação.
Isto acontece, por exemplo, quando sentimos que precisamos de:
- terminar um determinado número de livros;
- alcançar rapidamente um bom resultado num hobby;
- publicar todas as experiências nas redes sociais;
- aproveitar cada minuto das férias;
- criar momentos perfeitos para a família;
- transformar um passatempo numa fonte de rendimento.
Quando o descanso passa a ser avaliado pelo resultado, regressamos ao mesmo modo de desempenho do qual estávamos a tentar sair.
Não é necessário descansar da forma mais produtiva possível.
Descansar também implica reconhecer os limites
As atividades de descanso podem ajudar a recuperar energia, mas não resolvem sozinhas situações de sobrecarga persistente.
Quando as exigências são excessivas e os recursos são insuficientes, pode ser necessário estabelecer limites, redistribuir responsabilidades e pedir ajuda.
Isto torna-se especialmente importante na parentalidade, onde a responsabilidade contínua e a pressão para corresponder a expectativas elevadas podem aumentar o desgaste. No artigo sobre burnout parental, explico como o desequilíbrio entre as exigências e os recursos pode afetar a saúde emocional dos pais.
O descanso é necessário, mas precisa de ser acompanhado por mudanças nas condições que mantêm o cansaço.
Descansar é voltar ao que nos faz bem
O descanso não precisa de significar passar dias inteiros sem fazer nada.
Pode ser um tempo preenchido por atividades que ajudam a abrandar, a recuperar energia e a restabelecer a ligação connosco e com as pessoas de quem gostamos.
Uma atividade reparadora não precisa de ser útil, produtiva ou partilhada nas redes sociais.
Precisa apenas de responder ao que o corpo e a mente necessitam naquele momento.
Muitas vezes, aquilo de que precisamos não é de fazer mais.
É de voltar a fazer, sem pressa e sem exigência, aquilo que nos ajuda a estar presentes.