Dra. Margarida Martins

Nem toda a exclusão parece exclusão: quando a ideia de normalidade deixa alguém de fora

Quando pensamos em exclusão, imaginamos muitas vezes situações evidentes.

Alguém que é impedido de entrar num espaço.
Uma pessoa que é rejeitada por causa da sua deficiência, da sua origem, da sua identidade ou da sua orientação sexual.
Alguém a quem dizem diretamente: “Tu não podes estar aqui.”

Mas nem toda a exclusão é assim.

Às vezes, a exclusão aparece de formas muito mais subtis.

Pode estar numa pergunta, num comentário, numa piada, num olhar ou numa expectativa que parece perfeitamente normal.

E, precisamente por parecer normal, pode passar despercebida.

O que é a exclusão invisível?

Nem sempre excluir significa dizer explicitamente a alguém que não pertence.

Pode ser fazer um comentário sobre o corpo de outra pessoa como se fosse uma questão pública.

Pode ser assumir que uma pessoa com deficiência precisa sempre de ajuda.

Pode ser falar com o acompanhante em vez de falar diretamente com a própria pessoa.

Pode ser fazer uma piada sobre a forma como alguém fala, se veste ou se comporta.

Pode ser perguntar a uma criança porque é que ela “não consegue ser como os outros”.

Pode ser presumir que determinada pessoa tem um namorado ou uma namorada porque “é o normal”.

Pode ser olhar de forma diferente para alguém que não corresponde ao padrão a que estamos habituados.

E pode ser dizer:

“Não tenho nada contra, mas…” e, logo depois, fazer um comentário que coloca aquela pessoa novamente no lugar de “diferente”.

Muitas destas situações são tão comuns que deixamos de as questionar. Para quem faz o comentário, pode ser apenas uma brincadeira. Para quem o recebe, pode ser mais uma experiência de não pertença.

Como já explorámos no artigo “Era só uma piada.” Quando o preconceito se esconde no humor, nem sempre o preconceito aparece através de comportamentos explicitamente agressivos. Uma piada ou um comentário aparentemente inocente também pode transmitir uma mensagem de desvalorização ou exclusão.

A intenção não é o mesmo que o impacto

É importante distinguir duas coisas: a intenção de quem age e o impacto que a ação tem em quem a recebe.

Nem toda a exclusão é intencional. Uma pessoa pode não ter querido ofender. Pode não ter percebido que estava a ser preconceituosa. Pode até ter acreditado que estava a ajudar.

Mas o facto de não existir intenção de magoar não significa que não exista impacto. Podemos ter a intenção de brincar e, ainda assim, magoar. Podemos ter a intenção de ajudar e, ainda assim, retirar autonomia. Podemos ter a intenção de elogiar e, ainda assim, reforçar um estereótipo. Por isso, talvez seja importante substituir uma pergunta:

“Eu quis magoar?”

por outra:

“Que efeito teve aquilo que fiz?”

Esta mudança não significa viver com medo de dizer a coisa errada. Significa estar disponível para ouvir, reparar, aprender e fazer diferente.

É também uma questão de empatia: reconhecer que a experiência do outro pode ser diferente da nossa, mesmo quando não conseguimos compreendê-la totalmente. Como explico no artigo Empatia: compreender o outro sem precisar de sentir o mesmo, não precisamos de ter vivido a mesma experiência para reconhecer que aquilo que outra pessoa sente é real e merece ser escutado.

Mas afinal, normal como quem?

Talvez a questão da exclusão nos obrigue a olhar para uma palavra que utilizamos constantemente sem pensar muito sobre ela:

normal.

Quando dizemos que alguém é “normal”, raramente paramos para perguntar:

Normal como quem?

Qual é a referência que estamos a utilizar?

Um corpo “normal” tem que características?

Uma criança “normal” aprende a que ritmo?

Uma pessoa “normal” comunica como?

Uma família “normal” é constituída por quem?

Uma pessoa “normal” sente, pensa e comporta-se de que maneira?

E quem definiu tudo isto?

Desde muito cedo, aprendemos padrões sobre aquilo que é esperado, adequado ou desejável. Aprendemos o que é um corpo ideal. O que é uma família “normal”. Como deve comportar-se um rapaz ou uma rapariga. O que significa ser inteligente. Como devemos comunicar. Como devemos aprender. Como devemos envelhecer.

E, sem nos apercebermos, começamos a utilizar esses padrões como uma espécie de régua para avaliar as outras pessoas. Quem está próximo daquilo que aprendemos a considerar normal passa despercebido. Quem se afasta da norma torna-se “diferente”.

A norma não é necessariamente uma verdade

Aquilo que consideramos normal nem sempre representa uma verdade universal.

É uma referência.

E as referências podem mudar.

O que hoje nos parece estranho pode tornar-se familiar amanhã.

O que consideramos habitual pode ser apenas aquilo que vemos com maior frequência.

O que aprendemos a considerar desejável pode refletir os valores, a cultura e o contexto em que crescemos.

Por isso, talvez seja importante questionar a ideia de que existe uma única forma correta de ser pessoa.

A diferença não é sinónimo de anormalidade.

E ser diferente não significa ter alguma coisa errada.

O problema começa quando utilizamos a nossa própria referência de normalidade para decidir quem está certo, quem está errado, quem precisa de mudar e quem merece pertencer.

Quando a diferença se transforma numa desvantagem

É precisamente aqui que a ideia de normalidade se cruza com a inclusão. Uma pessoa pode ser diferente sem que essa diferença constitua um problema. O problema pode surgir quando os espaços, as relações e as expectativas não estão preparados para essa diversidade. Uma criança pode aprender a um ritmo diferente. Uma pessoa pode comunicar de outra forma, pode precisar de adaptações no ambiente. Uma família pode ter uma configuração diferente daquela a que estamos habituados. Uma pessoa pode ter uma identidade, um corpo ou uma forma de viver que não corresponde às expectativas sociais.

Nada disso, por si só, significa que essa pessoa tenha menos valor ou deva ter menos oportunidades.

Como escrevi no artigo O que significa, afinal, incluir? A importância da inclusão na saúde mental, a verdadeira inclusão não procura apagar as diferenças. Procura garantir que essas diferenças não se transformam numa desvantagem.

E esta distinção é fundamental. Porque incluir não significa fazer com que todos sejam iguais. Significa criar condições para que pessoas diferentes possam participar, ser respeitadas e sentir que pertencem.

A exclusão também pode acontecer dentro da família

Quando pensamos em exclusão, podemos imaginar sobretudo aquilo que acontece na escola, no trabalho ou na sociedade. Mas a exclusão também pode acontecer dentro da própria família. Pode aparecer através de críticas constantes, silêncio, invalidação, comentários depreciativos ou da dificuldade em aceitar uma parte importante da identidade de alguém. Nem sempre é uma rejeição explícita. Por vezes, a mensagem é mais subtil:

“Serias mais facilmente aceite se fosses diferente de quem és.”

É precisamente por isso que a rejeição familiar e a saúde mental merecem ser compreendidas também a partir da ideia de pertença. Porque a necessidade de pertencer não desaparece quando crescemos. Precisamos de sentir que podemos existir nas nossas relações sem ter constantemente de esconder partes de nós.

Não precisamos de ter medo de errar

Falar de inclusão não significa exigir que todas as pessoas saibam sempre o que dizer ou fazer.

Todos podemos cometer erros.

Podemos utilizar uma expressão inadequada.

Podemos fazer uma suposição errada.

Podemos não compreender inicialmente uma determinada experiência.

O problema não está necessariamente em errar.

Está em recusar aprender depois de percebermos que errámos.

Uma sociedade mais inclusiva não se constrói através da perfeição.

Constrói-se através da capacidade de ouvir, questionar os nossos preconceitos, reconhecer o impacto das nossas ações e mudar quando necessário.

Às vezes, a melhor resposta depois de percebermos que magoámos alguém não é:

“Mas eu não quis dizer isso.”

Pode ser simplesmente:

“Não era essa a minha intenção, mas percebo que te magoei. Vou ter mais atenção.”

Reparar também é uma forma de inclusão.

O que podemos fazer no dia a dia?

Podemos começar por pequenas coisas.

Podemos perguntar em vez de presumir.

Podemos falar diretamente com a pessoa e não apenas com quem a acompanha.

Podemos respeitar diferentes formas de comunicar.

Podemos evitar comentários sobre o corpo ou aparência dos outros.

Podemos não assumir a orientação sexual, identidade de género ou estrutura familiar de alguém.

Podemos perguntar antes de ajudar.

Podemos ouvir quando alguém nos diz que determinada atitude teve um impacto negativo.

E podemos questionar as nossas próprias ideias sobre aquilo que consideramos “normal”.

Não precisamos de deixar de reconhecer as diferenças.

Precisamos de deixar de transformar a diferença em falta.

Talvez a pergunta não seja “o que há de errado?”

Quando encontramos alguém que não corresponde àquilo que conhecemos, é fácil perguntar:

“O que há de errado com esta pessoa?”

Mas talvez exista uma pergunta mais interessante:

“Porque é que eu considero esta pessoa fora do normal?”

Esta pergunta não elimina as diferenças, não significa negar necessidades específicas, não significa fingir que somos todos iguais, significa apenas reconhecer que diferença e anormalidade não são sinónimos e talvez seja precisamente aí que começa uma forma diferente de olhar para os outros.

Não precisamos de ser normais para pertencer

Talvez uma sociedade verdadeiramente inclusiva não seja aquela em que todos cabem dentro da mesma ideia de normalidade, talvez seja aquela em que não precisamos de ser normais para pertencer. Uma sociedade onde uma pessoa não precisa de esconder uma parte de si para ser aceite, onde pedir ajuda não significa perder autonomia, onde comunicar de forma diferente não significa ser menos capaz, onde uma família não precisa de corresponder a um modelo específico para ser reconhecida, onde uma criança não precisa de aprender ao ritmo dos outros para ter valor, onde a diferença pode existir sem ser transformada automaticamente em problema. Porque, no fundo, a inclusão começa quando deixamos de perguntar quem merece caber.

E começamos a perguntar:

“O que podemos mudar para que mais pessoas possam pertencer?”

Talvez essa seja uma pergunta muito mais importante do que:

“Quem é normal?”

Normal como quem?

Dra. Margarida Martins