Todos os pais imaginam, de alguma forma, quem serão os seus filhos.
Ainda antes de nascerem, começam a surgir sonhos, expectativas e imagens sobre o futuro. Como será a sua personalidade. O que irão gostar de fazer. Que profissão terão. Se irão casar, ter filhos ou seguir um determinado caminho.
É um processo natural.
Criar expectativas faz parte da forma como o ser humano tenta organizar o futuro e dar sentido às relações.
O problema não está em imaginar.
O problema surge quando nos agarramos à imagem que criámos e deixamos de conseguir ver a pessoa que está realmente à nossa frente.
O que é o luto pelo filho idealizado?
Na Psicologia, fala-se, por vezes, do luto pelo filho idealizado para descrever o processo emocional que alguns pais vivem quando percebem que a realidade não corresponde às expectativas que tinham construído.
Este processo pode surgir em diferentes circunstâncias. Por exemplo, quando um filho recebe um diagnóstico de uma perturbação do desenvolvimento, desenvolve uma doença crónica, revela uma orientação sexual ou uma identidade de género diferente da que os pais imaginavam, apresenta dificuldades escolares inesperadas, escolhe uma profissão muito diferente daquela que a família idealizava ou toma decisões de vida que desafiam os valores e os planos familiares.
Em todas estas situações, aquilo que sofre uma perda não é o filho.
É a imagem que os pais tinham construído acerca dele.
Sentir tristeza não significa amar menos
Este é um aspeto importante e, por vezes, pouco compreendido.
Alguns pais sentem tristeza, medo, preocupação, culpa, confusão ou até uma sensação de perda quando as suas expectativas são desafiadas.
Estas emoções, por si só, não significam falta de amor.
Significam que existe um processo de adaptação a acontecer.
Tal como acontece noutras experiências de luto, pode ser necessário algum tempo para reorganizar pensamentos, expectativas e emoções.
O problema não é sentir estas emoções.
O problema surge quando permanecemos presos à imagem idealizada e deixamos de conseguir conhecer a pessoa que temos à nossa frente.
O perigo de amar uma ideia em vez de conhecer uma pessoa
Quando as expectativas se tornam demasiado rígidas, é fácil cair numa armadilha.
Sem intenção, podemos começar a comunicar mensagens como:
“Gostava que fosses diferente.”
“Era mais fácil aceitar-te se…”
“Continuas a ser meu filho, mas…”
Mesmo quando estas frases nunca são ditas, podem ser transmitidas através de olhares, silêncios, afastamento emocional ou tentativas constantes de mudar o outro.
Para quem as recebe, a mensagem pode tornar-se profundamente dolorosa:
“Só pertenço a esta família se corresponder às expectativas.”
Ao longo do tempo, esta experiência pode contribuir para sentimentos de vergonha, baixa autoestima, ansiedade, depressão e para um medo persistente de rejeição.
Quando a falta de aceitação acontece dentro da própria família, o impacto pode ser ainda mais profundo, precisamente porque é no contexto familiar que aprendemos, desde cedo, quem somos e se o mundo é um lugar seguro para existir. Se quiser aprofundar este tema, poderá ler o artigo “Rejeição familiar e saúde mental: quando a falta de aceitação vem de quem mais amamos”:
Além disso, é precisamente esta antecipação constante da rejeição que muitas pessoas acabam por transportar para outras relações ao longo da vida. Se gostaria de compreender melhor este processo, poderá interessar-lhe ler o artigo “Expectativa de rejeição: quando aprendemos a esperar que os outros não nos aceitem”:
Aceitar não significa compreender tudo de imediato
Existe uma ideia errada de que aceitar significa compreender tudo no momento em que algo nos é revelado.
Na realidade, aceitar é, muitas vezes, um processo.
Pode começar apenas por reconhecer que o outro tem uma experiência diferente da nossa.
Pode significar continuar presente enquanto fazemos perguntas.
Enquanto procuramos informação em fontes credíveis.
Enquanto revemos crenças que nunca tínhamos questionado.
Enquanto aprendemos.
Aceitar não exige respostas imediatas.
Exige disponibilidade para continuar na relação.
Quando as expectativas dão lugar ao encontro
Muitas famílias descrevem que, depois de ultrapassarem este processo, descobriram algo inesperado.
Perceberam que o filho nunca deixou de ser a mesma pessoa.
Continuava a rir das mesmas coisas.
Continuava a precisar de apoio.
Continuava a procurar carinho.
Continuava a querer sentir-se amado.
Aquilo que mudou não foi o filho.
Foi a forma como os pais passaram a olhar para ele.
E, muitas vezes, essa mudança permitiu construir uma relação mais autêntica, mais próxima e mais segura do que aquela que existia antes.
Quando os filhos sentem que podem ser autênticos sem receio de perder o amor da família, aumenta também o sentimento de pertença e de segurança. As relações afirmativas têm precisamente este poder: ajudar-nos a sentir que não precisamos de esconder quem somos para sermos aceites. Pode aprofundar este tema no artigo “Relações afirmativas: porque algumas pessoas nos ajudam a sermos mais nós próprios”:
Por vezes, porém, antes mesmo de existir rejeição, muitas pessoas aprendem a esconder partes importantes da sua identidade por receio da forma como serão vistas pelos outros. Este esforço constante pode ter consequências importantes para o bem-estar psicológico, como explico no artigo “O impacto de esconder quem realmente somos na saúde mental”:
Como a terapia pode ajudar
Nem sempre é fácil lidar com emoções contraditórias.
É possível amar profundamente um filho e, ao mesmo tempo, sentir medo, tristeza ou dificuldade em reorganizar expectativas.
A terapia pode oferecer um espaço seguro para compreender essas emoções sem julgamento.
Um lugar onde é possível explorar crenças, receios e dúvidas, distinguir expectativas da realidade e construir formas mais saudáveis de manter a relação.
Porque crescer enquanto família nem sempre significa mudar quem está à nossa frente.
Muitas vezes, significa transformar a forma como olhamos para essa pessoa.
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Em vez de perguntar:
“Porque é que o meu filho não é como eu imaginava?”
Talvez exista uma pergunta mais útil:
“O que preciso de deixar partir para conseguir conhecer verdadeiramente quem ele é?”
Porque, por vezes, o maior gesto de amor não é ver o outro como sempre sonhámos.
É permitir que ele exista exatamente como é.