“Descobri que o meu filho se está a magoar. O que faço?”
Esta é uma pergunta que nenhum pai ou mãe gostaria de ter de fazer.
Quando descobrimos que um filho está a envolver-se em comportamentos autolesivos, podem surgir muitas emoções ao mesmo tempo: medo, choque, raiva, tristeza, culpa ou impotência.
E talvez uma das primeiras perguntas seja:
“Como é que eu não percebi antes?”
Mas, naquele momento, a prioridade não é encontrar culpados.
É criar segurança.
A autolesão pode estar associada a sofrimento psicológico intenso e não deve ser desvalorizada como uma simples tentativa de chamar a atenção. Como explico no artigo “Autolesão: porque é que alguém se magoa de propósito?”, compreender a função do comportamento é fundamental para perceber que outras formas de lidar com o sofrimento podem ser construídas.
Então, o que pode fazer um pai ou uma mãe perante esta situação?
1. Comece por manter a calma
É natural entrar em pânico.
É natural sentir vontade de perguntar imediatamente:
“Porque fizeste isto?”
“Há quanto tempo acontece?”
“Quantas vezes já fizeste?”
“Quem te ensinou?”
“Porque não me disseste?”
Mas tente, tanto quanto possível, não reagir impulsivamente.
Uma reação muito intensa, mesmo quando nasce do medo e da preocupação, pode fazer com que o adolescente se sinta julgado, culpado ou assustado.
E isso pode levá-lo a esconder ainda mais aquilo que está a acontecer.
Manter a calma não significa não levar a situação a sério.
Significa criar condições para que o adolescente consiga falar.
2. Converse antes de tentar resolver
Escolha, se possível, um momento tranquilo.
Não precisa de preparar um grande discurso.
Pode simplesmente começar por mostrar que reparou e que está disponível.
Por exemplo:
“Eu percebi que alguma coisa não está bem. Não estou aqui para te julgar. Quero perceber como te posso ajudar.”
Ou:
“Sei que pode ser difícil falar sobre isto, mas não precisas de passar por isto sozinho.”
O objetivo inicial não é obter todas as respostas.
É abrir espaço para a conversa.
3. Evite ameaças, castigos e culpabilização
Quando estamos assustados, podemos dizer coisas que depois gostaríamos de não ter dito.
Por exemplo:
“Promete-me que nunca mais fazes isso.”
“Mas tens uma vida tão boa.”
“Estás a fazer isso para me manipular.”
“Se voltares a fazer, vais ver.”
Estas frases podem parecer uma tentativa de proteger o adolescente.
Mas podem aumentar a vergonha, a culpa ou o medo.
E existe outro problema: se o adolescente recear uma consequência, pode simplesmente começar a esconder melhor o comportamento.
O comportamento pode deixar de ser visível sem que o sofrimento que lhe deu origem desapareça.
4. Tente perceber o que está por detrás do comportamento
A pergunta “Porque é que fizeste isso?” pode ser difícil de responder.
Nem sempre o adolescente sabe.
E, quando sabe, pode ter dificuldade em explicar.
Por isso, em vez de procurar imediatamente uma única causa, pode ser mais útil explorar:
“O que estavas a sentir antes?”
“Aconteceu alguma coisa nesse dia?”
“Tinhas alguma coisa na cabeça?”
“O que sentiste depois?”
“Há momentos em que tens mais vontade de te magoar?”
Estas perguntas ajudam a perceber os acontecimentos, emoções e pensamentos que podem estar associados ao comportamento.
No artigo “Quando o comportamento da criança é um pedido de ajuda”, falo precisamente sobre a importância de olhar para determinados comportamentos como possíveis formas de comunicação de sofrimento.
Na adolescência, esta perspetiva continua a ser importante.
Nem sempre o comportamento é o problema inteiro. Às vezes, é a parte do problema que conseguimos ver.
5. Pergunte diretamente sobre pensamentos de morte ou suicídio
Esta pode ser uma das conversas que mais assusta os pais.
Mas é uma conversa importante.
Perguntar sobre suicídio não incentiva o suicídio.
Se existe autolesão, é importante perceber também se existem pensamentos de morte ou suicídio.
Pode perguntar de forma direta e tranquila:
“Alguma vez tens pensado que não queres estar vivo?”
“Tens tido pensamentos de morrer?”
“Alguma vez pensaste em fazer alguma coisa para morrer?”
Não é necessário dramatizar a pergunta.
É necessário estar disponível para ouvir a resposta.
No artigo “Autolesão e suicídio: qual é a diferença e porque estão relacionados?”, explico porque é que autolesão e tentativa de suicídio não são a mesma coisa, mas também porque é importante não assumir automaticamente que não existe risco quando existe autolesão.
6. Não assuma que a autolesão significa automaticamente intenção suicida
Esta distinção é importante.
Na autolesão não suicida, a pessoa provoca intencionalmente uma lesão no próprio corpo sem intenção de morrer naquele momento.
Numa tentativa de suicídio, existe intenção de provocar a própria morte.
Por isso, descobrir que o seu filho se está a magoar não significa automaticamente que esteja a tentar suicidar-se.
Mas também não permite concluir que está tudo bem.
A intenção pode ser difícil de avaliar e o risco pode mudar ao longo do tempo.
É por isso que uma avaliação profissional pode ser importante.
7. Procure ajuda profissional
Não é necessário esperar que a situação se torne “grave o suficiente”.
Se o seu filho apresenta comportamentos autolesivos, procurar apoio de um profissional de saúde mental pode ajudar a compreender o que está a acontecer e a definir uma intervenção adequada.
A avaliação pode ajudar a perceber:
- com que frequência acontece a autolesão;
- em que situações surge;
- quais são os principais desencadeadores;
- que emoções estão associadas;
- que estratégias o adolescente utiliza para lidar com o sofrimento;
- se existem pensamentos de morte ou suicídio;
- quais são os fatores de risco;
- que recursos e relações de apoio existem.
O objetivo não é apenas fazer desaparecer o comportamento.
É ajudar o adolescente a construir formas mais seguras de lidar com aquilo que sente.
8. Não transforme o telemóvel no único culpado
Se o adolescente está muito ligado às redes sociais, pode ser tentador concluir que:
“É por causa do TikTok.”
ou
“É por causa das redes sociais.”
As redes sociais podem, de facto, influenciar a forma como um adolescente vive determinadas experiências e podem expô-lo repetidamente a conteúdos relacionados com autolesão, sofrimento ou suicídio.
Mas não explicam, por si só, porque é que alguém se autolesiona.
No artigo “Quando as redes sociais alimentam o sofrimento psicológico”, abordo precisamente esta questão: mais importante do que perguntar apenas quanto tempo um adolescente passa online é perceber o que está a ver, como se sente depois e que conteúdos estão a aparecer repetidamente.
Por isso, pode ser importante conversar sobre o ambiente digital sem transformar o telemóvel no inimigo.
9. Ajude-o a encontrar outras formas de lidar com o sofrimento
Dizer apenas:
“Não te podes voltar a magoar.”
não ensina necessariamente o que fazer quando a emoção voltar a ser demasiado intensa.
A intervenção passa também por ajudar o adolescente a reconhecer os sinais de alerta e a desenvolver outras estratégias para lidar com aquilo que sente.
Pode ser necessário trabalhar:
- identificação e expressão de emoções;
- regulação emocional;
- resolução de problemas;
- relações interpessoais;
- autoestima;
- capacidade de pedir ajuda;
- estratégias para lidar com situações desencadeadoras;
- construção de uma rede de apoio.
O objetivo não é exigir que o adolescente deixe de sofrer.
É ajudá-lo a descobrir que existem outras formas de atravessar o sofrimento sem se magoar.
10. E os pais também precisam de apoio
Existe uma tendência para, quando uma criança ou adolescente está em sofrimento, toda a atenção se concentrar nele.
É compreensível.
Mas os pais também podem sentir medo, culpa, exaustão e impotência.
Pode ser difícil saber o que dizer.
Pode ser difícil distinguir entre proteger e controlar.
Pode ser difícil não entrar em pânico perante cada mudança de comportamento.
Por isso, procurar orientação profissional pode ajudar não apenas o adolescente, mas também os pais a compreenderem como responder de forma mais segura e consistente.
Não precisa de saber fazer tudo sozinho.
Se existir risco imediato
Se o adolescente estiver em perigo imediato, tiver realizado uma tentativa de suicídio, apresentar intenção suicida atual ou existir uma preocupação séria relativamente à sua segurança, não deve ficar sozinho nem esperar por uma consulta.
Numa situação de emergência, procure imediatamente ajuda através dos serviços de emergência ou de saúde adequados.
Quando existe dúvida sobre a segurança, é preferível procurar ajuda e avaliar o risco do que esperar para ver se passa.
O que o seu filho mais precisa de ouvir
Talvez, naquele momento, não precise de uma explicação perfeita.
Nem de uma solução imediata.
Nem de uma promessa de que aquilo nunca mais vai acontecer.
Talvez precise de sentir que não está sozinho.
Pode ser tão simples como dizer:
“Estou aqui.”
“Não precisas de resolver isto sozinho.”
“Não estou zangado contigo por estares a sofrer.”
“Vamos procurar ajuda juntos.”
Descobrir que um filho se está a magoar pode ser assustador.
Mas esse momento também pode ser o início de uma conversa que até então não tinha sido possível.
O primeiro passo para ajudar nem sempre é ter a resposta certa.
Às vezes, é conseguir ficar.
Escutar.
Perguntar.
E procurar ajuda.
Artigos relacionados
Se este tema lhe diz respeito, pode também ler:
- Autolesão: porque é que alguém se magoa de propósito? — para compreender o que pode estar por detrás dos comportamentos autolesivos.
- Autolesão e suicídio: qual é a diferença e porque estão relacionados? — sobre intenção, risco e prevenção do suicídio.
- Quando as redes sociais alimentam o sofrimento psicológico — sobre adolescentes, redes sociais e exposição a conteúdos relacionados com sofrimento.
- Quando o comportamento da criança é um pedido de ajuda — sobre comportamentos que podem funcionar como formas de comunicação do sofrimento.